Histórias de Recuperação

Reabilitação: “Eu achava que depressão era frescura. Hoje sei que foi isso que quase acabou comigo”

Ramalho tem 36 anos, é técnico em enfermagem e viveu por anos entre a depressão não tratada e o uso de cocaína. O que começou como sofrimento emocional silencioso evoluiu para tentativas de suicídio e múltiplas internações. Hoje, em recuperação, ele reconstruiu sua vida pessoal e profissional. Esta é a história dele.

Dependência química e depressão · Depoimento: Ramalho, 36 anos · Leitura: ~7 min

Cristina Collina
Redação
Cristina Collina

Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.

Comunicação em Saúde
RESPOSTA RÁPIDA — quando depressão e dependência caminham juntas
A associação entre depressão e uso de substâncias é comum e aumenta a complexidade do tratamento. Ramalho ignorou os primeiros sinais, evoluiu para uso de cocaína e chegou a tentar suicídio. Após internações e tratamento estruturado, conseguiu estabilizar a saúde mental e interromper o uso. Hoje, reforça: tratar a depressão é parte essencial da recuperação.
36 anos
Idade de Ramalho
+10 internações
Ao longo do processo
2 diagnósticos-chave
depressão e dependência química  

Quando o sofrimento não é reconhecido

Os primeiros sinais apareceram ainda na faculdade. Uma professora percebeu mudanças no comportamento e sugeriu que ele buscasse ajuda. Ramalho não levou a sério.

“Na época, eu brinquei. Não achava que era algo importante.” – Ramalho, enfermeiro de um hospital de grande porte na capital paulista, ex-paciente do Hospital Santa Mônica

Os anos passaram e os sintomas se intensificaram — isolamento, alterações de humor, dificuldade para dormir.

A família percebia. Ele, não.

“Todo mundo via que eu não estava bem. Menos eu.” – Ramalho

O agravamento: depressão, crise pessoal e uso de drogas

O quadro piorou após uma ruptura conjugal. O sofrimento emocional aumentou, o sono desapareceu e a funcionalidade começou a cair.

Mesmo assim, Ramalho seguiu trabalhando — até que não conseguiu mais sustentar a rotina.

Foi nesse momento que buscou atendimento psiquiátrico pela primeira vez.

Recebeu diagnóstico, prescrição e afastamento do trabalho.

Mas não aderiu ao tratamento.

“Na minha cabeça, depressão era frescura.” – Ramalho

Sem tratamento, o sofrimento encontrou outra via: a cocaína.

A tentativa de aliviar a dor — e o início da dependência

O uso começou de forma intermitente, como tentativa de lidar com o mal-estar emocional.

Rapidamente evoluiu.

A frequência aumentou, o controle diminuiu e a dependência se instalou.

Paralelamente, os pensamentos suicidas se intensificaram — culminando em tentativa de suicídio.

Esse é um padrão frequente: quando não tratada, a depressão pode levar ao uso de substâncias como forma de alívio — agravando ainda mais o quadro.

O primeiro passo — mesmo sem escolha

Com o agravamento do quadro, a família precisou intervir.

A primeira internação foi compulsória.

“Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.” – Ramalho

Apesar da resistência inicial, esse foi o ponto de partida do processo de reabilitação.

A reabilitação: um processo longo — e não linear

Ao longo da trajetória, Ramalho passou por mais de dez internações.

A maioria voluntária.

“Depois da primeira, eu já entendia que precisava de ajuda.” – Ramalho

Esse dado é relevante: recaídas e reinternações não significam fracasso — fazem parte da evolução clínica em muitos casos de dependência química.

O tratamento incluiu:

  • desintoxicação supervisionada
  • uso de medicação psiquiátrica
  • psicoterapia
  • acompanhamento contínuo

Comorbidades, como a depressão, exigem abordagem integrada.

A ausência que marcou: o papel da família

Um dos pontos mais sensíveis da história de Ramalho foi a ausência familiar durante as internações.

Ele relata o impacto emocional de não receber visitas.

“Você está ali, vulnerável, e vê todo mundo com apoio. E você não.” – Ramalho

A experiência reforça um ponto central no tratamento:

A dependência química não afeta apenas o paciente — mas toda a rede ao redor. E o suporte familiar pode ser determinante na evolução.

O que fez a diferença

Apesar das dificuldades, alguns momentos foram decisivos.

O vínculo com profissionais da equipe terapêutica foi um deles.

“Teve uma frase que eu nunca esqueci: existem coisas que mudam toda a nossa trajetória.” – Ramalho

Outro ponto marcante foi um momento de ruptura interna.

“Teve um dia que eu disse: eu não aguento mais.” – Ramalho

A partir dali, algo mudou na relação com a droga.

A retomada da vida

Após a alta, o desafio passou a ser outro: reconstruir a rotina.

Ramalho voltou ao trabalho com insegurança — e uma estratégia simples:

“Todo dia eu dizia para mim: hoje vou ser o melhor funcionário.” – Ramalho

A consistência gerou resultado.

Em pouco tempo, voltou a se destacar e reconquistou sua posição anterior.

“Eu recuperei tudo o que tinha perdido.” – Ramalho

Recuperação: um compromisso diário

Hoje, Ramalho está sem uso de substâncias e sem necessidade de medicação.

Mas mantém a consciência de que o cuidado é contínuo.

“É só por hoje. Todos os dias.” – Ramalho

Essa é uma das bases da recuperação em dependência química: foco no presente e manutenção diária.

Mensagem de quem viveu o processo

Ramalho deixa um alerta direto:

“Levar o tratamento a sério muda tudo. Foi isso que salvou a minha vida.” – Ramalho

Contexto clínico — equipe do Hospital Santa Mônica
Programa de Dependência Química · Comorbidades Psiquiátricas
“A associação entre dependência química e transtornos como a depressão é frequente e exige abordagem integrada. O tratamento deve contemplar tanto a desintoxicação quanto o manejo psiquiátrico e psicoterapêutico. A adesão ao tratamento e o suporte contínuo são determinantes para a recuperação sustentada.”
Você ou alguém próximo está passando por algo parecido?
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6 Comentários em “Reabilitação: “Eu achava que depressão era frescura. Hoje sei que foi isso que quase acabou comigo””

  • Silvio Silvério Da Silva

    diz:

    Superação, inspiração, exemplo, sou amigo desse rapaz, sou farmacêutico, fiz tratamento junto com ele, ele me ajudou muito,me ensinou, parabéns a todos vcs

  • Silvio Silvério Da Silva

    diz:

    Rodrigo mostrou que há sim esperança e solução, com esforço, com dedicação,com desejo real e com a fé em Deus, esse cara, eu conheci e convivi com ele nas mesmas condições e dificuldades e tratamento,me ajudou demais,me ensinou demais,homem abencoado

  • Marly Ribeiro

    diz:

    Conheci o Rodrigo quando ele retorno ao trabalho. E sei que ele realmente levou a sério o tratamento. Mesmo sabendo que seria demitido após passar a sua estabilidade. Pra ele o importante era que naquele momento ele daria o seu melhor, mesmo que fosse por 30 dias. E por ele ter dado o melhor de si. Teve uma segunda chance. Sei que Deus o abençou e cuidou dele.

    • Mônica

      diz:

      Olá Marly, sim, é um exemplo de superação, torcemos por ele, esperamos em breve fazermos uma live para contar o caso dele e inspirar outras pessoas, abraço

  • RICARDO LOM

    diz:

    Passei pelo mesmo processo que o Paulo, digno de admiração. Há 4 anos limpo escrevi um livro, e gostaria de compartilhar com vcs. Tenho um perfil no instagram @tresdiasemeioasaga , se puderem me envie o endereço de entrega, é um presente para vcs. Hoje faço palestras sobre a dependencia quimica, a minha contribuição para a sociedade. Forte abraço Ricardo Lom.

    • Mônica

      diz:

      Obrigada Ricardo!

Comentários estão fechados.

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