Setembro Amarelo

Suicídio em homens: por que eles morrem mais e como reconhecer os sinais de alerta

A taxa de mortalidade por suicídio entre homens no Brasil é cerca de três vezes maior que entre mulheres. Dados do Ministério da Saúde mostram que, embora mulheres apresentem maior frequência de ideação e tentativas de suicídio, os homens apresentam maior risco de morrer por suicídio. Entre os fatores associados estão dificuldades para buscar ajuda, isolamento, sofrimento psíquico não tratado, uso de álcool e outras drogas e aspectos relacionados às normas sociais de masculinidade.

Falar sobre saúde mental masculina é, portanto, também falar sobre prevenção do suicídio. Reconhecer mudanças de comportamento, abrir espaço para uma conversa sem julgamentos e facilitar o acesso ao cuidado profissional podem fazer parte dessa prevenção.

Por que os homens morrem mais por suicídio?

A diferença entre homens e mulheres no suicídio é observada em diversos países. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os homens apresentam maior mortalidade por suicídio, enquanto as mulheres, em geral, apresentam maior frequência de tentativas e comportamentos suicidas não fatais.

No Brasil, a taxa de suicídio entre homens é três vezes maior que entre mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Entre os homens, a taxa aumenta progressivamente com a idade e atinge o pico entre aqueles com mais de 70 anos.

Dados mais recentes compilados no Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam 2026), com informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), mostram que, em 2024, a taxa padronizada de mortalidade por suicídio foi superior entre homens em todas as faixas etárias a partir dos 15 anos. Entre 20 e 24 anos, por exemplo, foram registrados 16,3 óbitos por 100 mil homens, contra 4,3 por 100 mil mulheres. Entre pessoas com 70 anos ou mais, foram 17,0 por 100 mil homens e 2,4 por 100 mil mulheres.

Esses números ajudam a dimensionar o problema, mas não explicam sozinhos por que os homens apresentam maior mortalidade.

Como a masculinidade pode influenciar a busca por ajuda?

A ideia de que o homem precisa ser forte, independente e capaz de resolver os problemas sozinho pode dificultar o reconhecimento do sofrimento e a procura por atendimento.

Pesquisas sobre saúde mental masculina apontam uma associação entre normas tradicionais de masculinidade e barreiras à busca por ajuda psicológica. Uma revisão sistemática publicada em 2016 identificou impactos dessas normas tanto na forma como os homens expressam sintomas quanto em suas atitudes e comportamentos relacionados à procura de tratamento.

Uma meta-análise publicada em 2025 também encontrou associação entre ideologias tradicionais de masculinidade, conflito de papéis de gênero e atitudes diante da busca de ajuda psicológica.

Isso não significa que todos os homens tenham dificuldade para falar sobre emoções ou procurar tratamento. O ponto é que determinadas expectativas sociais podem criar uma barreira adicional para quem já está em sofrimento.

Uma revisão recente sobre intervenções de prevenção do suicídio direcionadas a homens reforça que eles apresentam mortalidade por suicídio de duas a quatro vezes maior que as mulheres e são menos propensos a buscar ajuda. A revisão também destaca que ainda existem evidências limitadas sobre quais estratégias específicas são mais eficazes para reduzir a mortalidade masculina.

Quais são os sinais de alerta para o suicídio em homens?

Não existe um único comportamento capaz de identificar com certeza uma crise suicida. Os sinais de alerta não devem ser considerados isoladamente: não há uma “receita” para detectar seguramente quando uma pessoa está vivenciando uma crise suicida. No entanto, mudanças de comportamento e múltiplos sinais de sofrimento devem chamar a atenção de familiares e pessoas próximas. (Ministério da Justiça e Segurança Pública).

Algumas mudanças, porém, merecem atenção:

  • isolamento social ou afastamento de familiares e amigos;
  • irritabilidade ou mudanças importantes de comportamento;
  • aumento do consumo de álcool ou outras drogas;
  • perda de interesse por atividades que antes eram importantes;
  • sentimentos persistentes de desesperança ou de ser um peso para outras pessoas;
  • alterações importantes no sono ou na alimentação;
  • sofrimento emocional intenso;
  • falar sobre morte, desaparecimento ou falta de sentido na vida;
  • despedidas ou comportamentos que indiquem uma possível preparação para a morte.

A OMS também destaca como sinais de alerta mudanças graves de humor, isolamento social, manifestações sobre querer morrer ou não ter motivos para viver e procura por formas de tirar a própria vida.

Irritabilidade pode ser sinal de sofrimento emocional?

Pode. Em alguns homens, o sofrimento psicológico pode aparecer predominantemente por meio de irritabilidade, agressividade, afastamento ou aumento do consumo de substâncias, em vez de uma manifestação claramente reconhecida como tristeza.

Isso não significa que irritabilidade seja, isoladamente, um sinal de risco de suicídio. Mudanças persistentes de comportamento devem ser avaliadas dentro do contexto da pessoa, especialmente quando aparecem junto com isolamento, uso problemático de álcool ou drogas, desesperança ou outros sinais de sofrimento.

O uso de álcool e outras drogas aumenta o risco?

O consumo problemático de álcool e outras drogas está entre os fatores associados ao comportamento suicida. A OMS aponta transtornos relacionados ao uso de álcool, depressão, tentativas anteriores de suicídio, isolamento, perdas, conflitos, dificuldades financeiras, violência e outras situações de sofrimento como fatores relacionados ao risco.

Por isso, uma mudança repentina no padrão de consumo merece atenção, principalmente quando ocorre simultaneamente a outras alterações emocionais ou comportamentais.

O uso de substâncias não deve ser interpretado como prova de que uma pessoa está em risco de suicídio. É um sinal que precisa ser considerado dentro de uma avaliação mais ampla.

Falar sobre suicídio aumenta o risco?

Não. Perguntar diretamente sobre suicídio não provoca uma tentativa ou “coloca a ideia na cabeça” de alguém.

A OMS afirma que perguntar a uma pessoa se ela está pensando em suicídio pode reduzir a ansiedade e ajudá-la a se sentir compreendida. Falar de maneira responsável sobre o tema pode criar uma oportunidade para que a pessoa revele o sofrimento e receba ajuda.

O mais importante é conversar de forma direta, calma e sem julgamentos.

Em vez de minimizar o sofrimento com frases como “isso vai passar” ou “você precisa ser forte”, procure ouvir e demonstrar disponibilidade.

Como ajudar um homem que está sofrendo?

Se você perceber mudanças importantes em alguém próximo, algumas atitudes podem ajudar:

1. Escolha um momento adequado para conversar.
Procure um ambiente tranquilo e com privacidade.

2. Pergunte diretamente como ele está.
Demonstre interesse genuíno, sem pressionar a pessoa a falar mais do que consegue naquele momento.

3. Escute sem julgar.
Evite frases que minimizem o sofrimento ou reforcem a ideia de que ele precisa “aguentar sozinho”.

4. Pergunte sobre pensamentos suicidas quando houver motivo para preocupação.
A pergunta direta pode abrir espaço para uma conversa importante e não aumenta o risco de suicídio.

5. Incentive a busca por ajuda profissional.
Psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais de saúde podem avaliar o sofrimento e indicar o cuidado adequado.

6. Não deixe a pessoa sozinha diante de uma situação de risco imediato.
Se houver risco iminente de suicídio, é necessário buscar atendimento de emergência e ajuda profissional imediatamente.

O que fazer diante de uma emergência?

Se uma pessoa estiver em risco imediato de se machucar ou morrer, a prioridade é garantir sua segurança e buscar atendimento de emergência.

No Brasil, também é possível procurar o SAMU (192), uma unidade de pronto atendimento ou serviço de emergência. O CVV (188) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso.

A OMS recomenda que pessoas em risco imediato procurem serviços de emergência ou linhas de crise e ressalta a importância do acesso a suporte emocional e a profissionais de saúde.

Por que a prevenção do suicídio precisa considerar os homens?

O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não existe uma única causa nem uma explicação que possa ser aplicada a todos os homens.

O Ministério da Saúde destaca a influência de fatores sociais, culturais, econômicos, psicológicos e relacionais. Entre homens, questões relacionadas ao trabalho, renda, desemprego, dificuldades financeiras, aposentadoria, isolamento e ruptura de papéis sociais podem contribuir para situações de maior vulnerabilidade.

Por isso, prevenir o suicídio também significa ampliar as possibilidades de cuidado e tornar socialmente aceitável que homens falem sobre sofrimento emocional e procurem ajuda.

Ser forte não significa enfrentar tudo sozinho. Pedir ajuda também é uma forma de cuidar da própria vida.

Perguntas frequentes sobre suicídio em homens

Por que o suicídio é mais frequente entre homens?

A mortalidade por suicídio é maior entre homens por uma combinação de fatores. Entre eles estão barreiras à busca de ajuda, normas tradicionais de masculinidade, isolamento, uso problemático de álcool e outras drogas, fatores sociais e econômicos e diferenças na letalidade dos meios utilizados. Não existe uma causa única.

Homens pedem menos ajuda psicológica?

Estudos indicam que homens, em média, apresentam maior resistência ou menor probabilidade de buscar ajuda para problemas de saúde mental, e normas tradicionais de masculinidade podem contribuir para essa barreira.

Quais são os principais sinais de alerta?

Isolamento, mudanças importantes de comportamento, desesperança, alterações de humor, aumento do consumo de álcool ou outras drogas, perda de interesse, falas relacionadas à morte e outros sinais de sofrimento intenso podem indicar a necessidade de atenção. Nenhum sinal isolado permite diagnosticar risco de suicídio.

Perguntar se alguém pensa em suicídio pode incentivar uma tentativa?

Não. A OMS orienta que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não aumenta o risco e pode ajudar a pessoa a se sentir compreendida e a falar sobre o que está vivendo.

O que fazer se um homem próximo estiver em risco?

Ouça sem julgamento, permaneça próximo, incentive a busca por ajuda profissional e, diante de risco imediato, procure um serviço de emergência. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192 e o CVV atende pelo 188.

Precisa de ajuda? O Hospital Santa Mônica pode orientar

Se você ou alguém próximo está passando por um momento de sofrimento emocional intenso, não é preciso esperar que a situação se agrave para buscar ajuda.

O Hospital Santa Mônica oferece atendimento especializado em psiquiatria e saúde mental para adultos, adolescentes e crianças, com diferentes modalidades de cuidado de acordo com as necessidades de cada paciente.

Em situações de crise psiquiátrica, o Pronto Atendimento Psiquiátrico é uma opção para avaliação especializada. A equipe pode avaliar o quadro, identificar fatores de risco e orientar a conduta mais adequada para cada situação.

Se houver risco imediato de suicídio ou de a pessoa se machucar, procure atendimento de emergência imediatamente. Em situações de emergência, também é possível acionar o SAMU pelo 192.

Quando procurar ajuda profissional?

É importante buscar avaliação quando mudanças de comportamento ou sofrimento emocional começam a interferir na rotina, nos relacionamentos, no trabalho ou nos estudos — especialmente quando há isolamento, uso abusivo de álcool ou outras drogas, desesperança, pensamentos relacionados à morte ou outras mudanças importantes.

Não espere a crise chegar ao limite. Procurar ajuda é um ato de cuidado.

Saúde mental masculina também é prevenção

Falar sobre suicídio não significa falar apenas sobre morte. Significa falar sobre sofrimento, prevenção, cuidado e possibilidade de tratamento.

Muitos homens foram ensinados a suportar dificuldades em silêncio. Mas sofrimento emocional não é sinal de fraqueza — e procurar ajuda não diminui ninguém.

Se você percebeu mudanças em si mesmo ou em alguém próximo, não espere que o sofrimento fique insuportável para procurar ajuda. O primeiro passo pode ser uma conversa.

Hospital Santa Mônica — referência em psiquiatria e saúde mental.

Saiba mais em Setembro Amarelo: Prevenção do Suicídio | Hospital Santa Mônica

Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio: informações para profissionais de saúde e para a população. Brasília: Ministério da Saúde.
    Ministério da Saúde — Prevenção do suicídio
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico — Suicídio: monitoramento dos casos no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde.
    Ministério da Saúde — Boletins Epidemiológicos
  3. BRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2026). Brasília: Ministério das Mulheres, 2026.
  4. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide. Geneva: World Health Organization.
    WHO — Suicide
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide: questions and answers. Geneva: World Health Organization.
    WHO — Suicide: Questions and Answers
  6. SEIDMAN, A. J.; WADE, N. G. et al. Masculinity and help-seeking for mental health problems: a systematic review. Journal of Counseling Psychology, 2016.
    PubMed — Masculinity and help-seeking
  7. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Informações e recursos sobre prevenção do suicídio e saúde mental.
    American Psychiatric Association

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