Transtorno Mental

Crise de Transtorno Bipolar: quando internar o paciente?

📋 Neste artigo você vai aprender:
1. O que é uma crise de transtorno bipolar e seus tipos
2. Como identificar os sinais de um surto maníaco ou depressivo
3. O que desencadeia as crises
4. O que fazer quando a pessoa está em crise
5. Quando a internação psiquiátrica é indicada
6. Os benefícios do tratamento hospitalar
7. FAQ com perguntas frequentes sobre o tema

A crise de transtorno bipolar pode ocorrer a qualquer momento e exige reconhecimento rápido por parte de familiares e cuidadores. Por isso, é fundamental que o paciente seja diagnosticado precocemente e receba o tratamento adequado. Uma das possibilidades terapêuticas é a internação psiquiátrica, que pode surtir efeitos bastante positivos quando indicada corretamente.

Basicamente, a bipolaridade — como esse transtorno também é chamado — é um distúrbio psiquiátrico marcado pela alternância entre a euforia (mania) e a depressão. Bastante complexo, apresenta crises com duração, frequência e intensidade variáveis, tornando o manejo clínico um desafio constante.

Neste conteúdo, o Dr. Guilherme Shirakawa, psiquiatra do Hospital Santa Mônica, explica em detalhes sobre esses episódios e os critérios que indicam a necessidade de hospitalização.

O que é a Crise de Transtorno Bipolar?

A crise de transtorno bipolar é um episódio em que o indivíduo se encontra na fase de depressão ou de mania (euforia intensa). No primeiro caso, tende ao isolamento e à retração. No segundo, apresenta um estado psíquico instável no qual é difícil manter a funcionalidade e a segurança.

É importante especificar que a depressão bipolar pode compartilhar características com a depressão unipolar, porém com tendência mais marcada ao isolamento. Já a mania envolve excitação, impulsividade e comportamentos de risco.

O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por alterações acentuadas de humor com impacto significativo nas emoções, no comportamento, nas relações interpessoais e na cognição. A intensidade pode variar de leve a grave, gerando perda progressiva de autonomia, identidade e qualidade de vida.

🔬 Evidência científica De acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição) e a CID-10/CID-11, o transtorno bipolar afeta cerca de 1% a 2,5% da população mundial ao longo da vida, sendo uma das principais causas de incapacidade entre adultos jovens (OMS, 2023).

Como é o Surto de um Bipolar? Sinais e Sintomas

O surto pode acontecer de duas maneiras distintas. Reconhecer os sinais de cada fase é essencial para buscar ajuda no momento certo.

Episódio Depressivo

Na fase depressiva, o paciente tende a evitar situações sociais e vive um período de profunda tristeza, que pode durar de semanas a anos. Os principais sinais incluem:

  • Ausência de vontade para atividades cotidianas e autocuidado
  • Negligência com higiene pessoal e com o ambiente
  • Pessimismo acentuado em relação ao futuro e perda de esperança
  • Distanciamento afetivo: os acontecimentos ao redor não causam impacto
  • Ideação suicida — que pode se concretizar sem tratamento adequado

Episódio Maníaco

O episódio de mania é marcado pela instabilidade e pela aceleração dos pensamentos e comportamentos. Os principais sinais incluem:

  • Necessidade de sono reduzida sem sensação de cansaço
  • Exposição a comportamentos de risco (financeiros, sexuais, físicos)
  • Intensificação de compulsões: alimentação, compras, jogos e sexualidade
  • Grandiosidade, autoestima inflada e irritabilidade
  • Fala acelerada, pensamentos em fuga e dificuldade de concentração

A transição entre as duas fases pode ocorrer de forma rápida, já que o paciente apresenta alta capacidade de alternar entre esses estados de humor. Vale lembrar que o humor, diferentemente do estado emocional pontual, é algo mais duradouro e perene — seus extremos são justamente a depressão e a euforia.

O que pode desencadear a Crise de Transtorno Bipolar?

As causas de uma crise no transtorno bipolar são multifatoriais. Entre os principais fatores desencadeantes, destacam-se:

  • Episódios frequentes de depressão ou início precoce das crises na vida do paciente
  • Estresse prolongado e exposição a eventos traumáticos
  • Puerpério (período pós-parto), especialmente nas primeiras semanas
  • Uso de remédios inibidores de apetite, como anfetaminas e anorexígenos
  • Disfunções da tireoide (hipotireoidismo e hipertireoidismo)
  • Privação de sono e uso de substâncias psicoativas

A causa efetiva do transtorno bipolar ainda não foi completamente determinada pela ciência. Pesquisas apontam para a combinação de fatores genéticos, alterações nos níveis de neurotransmissores (dopamina, serotonina e noradrenalina) e mudanças estruturais em regiões específicas do cérebro, como o córtex pré-frontal e a amígdala.

O que fazer quando a pessoa está em Crise Bipolar?

Os períodos de crise podem durar dias ou meses. Com o tratamento adequado, é possível reduzir a frequência e a intensidade dos episódios. Além do suporte clínico, o ambiente familiar tem papel fundamental. Algumas orientações essenciais:

  • Evite discussões e embates diretos — isso tende a agravar o estado emocional do paciente
  • Mantenha calma ao falar e use um tom de voz tranquilo para evitar ações impulsivas
  • Adote uma postura positiva, especialmente nos episódios depressivos
  • Não facilite comportamentos de risco nem trate o paciente como vítima — incentive a realização de tarefas dentro de suas capacidades
  • Jamais julgue a condição do paciente bipolar
  • Preste atenção ao que é dito: pacientes em crise tendem a agir conforme verbalizam. Se houver menção a suicídio ou a outras situações graves, procure imediatamente ajuda especializada
⚠️ Atenção ao risco de suicídio O transtorno bipolar está associado a um risco de suicídio 20 a 30 vezes maior do que na população geral (Goodwin & Jamison, 2007). A ideação suicida deve sempre ser levada a sério e avaliada por um profissional de saúde mental. Em caso de risco imediato, ligue para o CVV (188) ou acesse uma UPA ou pronto-socorro psiquiátrico.

Quando Internar o Paciente com Transtorno Bipolar?

A internação do paciente com transtorno bipolar depende da gravidade do caso. Segundo o DSM-5 e a CID-10, o transtorno é classificado nos seguintes tipos:

Tipos de Transtorno Bipolar e Indicação de Internação

TipoCaracterísticas principaisInternação
Tipo IEpisódios graves de mania e depressão; alto risco de suicídio; comprometimento de relacionamentos e carreiraFrequentemente indicada
Tipo IIAlternância entre depressão e hipomania (euforia mais leve); pouco prejuízo funcionalRaramente indicada
MistoCoexistência de sintomas depressivos e maníacos no mesmo episódio; mais imprevisívelAvaliação caso a caso
CiclotímicoForma mais leve; variações de humor no mesmo dia; pode ser confundido com temperamento instávelGeralmente não indicada

Principais Critérios para Indicação de Internação

A internação psiquiátrica é indicada quando há situações de risco concreto. Os principais critérios incluem:

  • Risco de suicídio ou de comportamentos autolesivos
  • Risco de heteroagressividade (dano a terceiros)
  • Incapacidade de cuidados básicos de higiene e alimentação
  • Não adesão ao tratamento ambulatorial ou recusa de medicação
  • Episódio maníaco grave com comportamentos de risco iminente
  • Necessidade de ajuste de medicação em ambiente controlado

É fundamental realizar o diagnóstico correto com um psiquiatra e contar com uma equipe multidisciplinar para definir a melhor abordagem terapêutica.

Quais os Benefícios da Internação para o Tratamento?

O tratamento do transtorno bipolar é realizado com acompanhamento psiquiátrico e psicológico contínuo. Em determinados momentos, a internação hospitalar permite uma abordagem mais abrangente e intensiva, com benefícios claros:

  • Ambiente seguro e controlado, afastando o paciente de fatores de risco
  • Ajuste de medicação com monitoramento clínico em tempo real
  • Acesso a diversas terapias integradas: psicoterapia, terapia ocupacional, grupos terapêuticos
  • Suporte psicoeducacional para o paciente e seus familiares
  • Estabilização do sono e da rotina, essenciais para o controle do humor
  • Vigilância contínua, especialmente nas situações de risco de vida

Portanto, a internação tem impacto positivo significativo quando há risco de morte — para o paciente ou para seus familiares. Ainda que seja uma medida de caráter emergencial, o acompanhamento contínuo em hospital psiquiátrico é recomendado sempre que essas condições se apresentarem.

Perguntas Frequentes sobre Crise de Transtorno Bipolar (FAQ)

A internação para transtorno bipolar é obrigatória?

Não. A internação é indicada apenas em casos graves, especialmente quando há risco de suicídio, comportamentos de risco iminente ou incapacidade de autocuidado. Na maioria dos casos, o tratamento é feito de forma ambulatorial, com acompanhamento psiquiátrico e psicológico regular.

Quanto tempo dura um episódio de crise bipolar?

A duração varia bastante de pessoa para pessoa. Os episódios podem durar de alguns dias a vários meses. Com o tratamento adequado — especialmente com estabilizadores de humor —, a frequência e a duração das crises tendem a diminuir significativamente ao longo do tempo.

Quais são os primeiros sinais de uma crise bipolar que exige atenção?

Os sinais de alerta incluem: redução abrupta da necessidade de sono sem cansaço (sinal de mania), isolamento progressivo e perda de interesse em atividades (sinal de depressão), aumento de impulsividade, gastos excessivos, verbalização de pensamentos suicidas ou grandiosidade exagerada. Qualquer um desses sinais deve ser comunicado ao psiquiatra responsável.

Pessoa com transtorno bipolar pode ter vida normal?

Sim. Com diagnóstico correto, adesão ao tratamento e suporte familiar adequado, a maioria dos pacientes com transtorno bipolar consegue manter uma vida estável, produtiva e com bons relacionamentos. O tratamento contínuo é a chave para o controle das crises e a preservação da qualidade de vida.

Qual a diferença entre mania e hipomania no transtorno bipolar?

A mania (presente no Tipo I) é um episódio grave de excitação, que pode incluir psicose e comportamentos de alto risco, exigindo muitas vezes internação. A hipomania (presente no Tipo II) é uma versão mais leve da mania: o paciente se sente eufórico e com muita energia, mas sem perder completamente o contato com a realidade. A hipomania raramente exige internação.

Família pode pedir internação involuntária de um paciente bipolar?

Sim, em casos de risco iminente à saúde ou à vida do paciente ou de terceiros, a Lei 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira) prevê a internação involuntária mediante solicitação da família ou responsável legal, com laudo médico. O processo deve sempre respeitar os direitos do paciente e ser comunicado ao Ministério Público.

Por que Contar com o Hospital Santa Mônica?

O Hospital Santa Mônica tem mais de 55 anos de experiência e é especializado no tratamento de transtornos mentais. O objetivo institucional é garantir a reabilitação da saúde física e mental e promover a reintegração social do paciente.

A estrutura conta com área superior a 83 mil m², sendo 50 mil m² de Mata Atlântica preservada, favorecendo o contato com a natureza e contribuindo para o bem-estar durante o período de internação.

Equipes multidisciplinares estão disponíveis para a realização de um tratamento humanizado para o paciente e sua família, aumentando as taxas de sucesso no processo de recuperação.

📞 Precisa de ajuda? Entre em contato com o Hospital Santa Mônica para conversar com nossa equipe especializada e descobrir como podemos apoiar você e sua família no tratamento do transtorno bipolar.

Conclusão

A crise de transtorno bipolar exige atenção, cuidado e, acima de tudo, suporte profissional qualificado. A internação psiquiátrica não é o recurso mais comum, mas pode ser decisiva nos casos de risco de vida ou de grave comprometimento funcional. O diagnóstico preciso, o acompanhamento contínuo e o suporte familiar são os pilares de um tratamento eficaz.

Se você identificou sinais de crise em um familiar ou conhecido, não espere. Busque avaliação psiquiátrica o quanto antes.

Referências Bibliográficas

[1] American Psychiatric Association. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

[2] Organização Mundial da Saúde. CID-10: Classificação Estatística Internacional de Doenças. Genebra: OMS, 1992.

[3] Goodwin FK, Jamison KR. Manic-Depressive Illness: Bipolar Disorders and Recurrent Depression. 2ª ed. Nova York: Oxford University Press, 2007.

[4] Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Brasília: Senado Federal, 2001.

[5] Sociedade Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para o tratamento do transtorno bipolar. São Paulo: SBP, 2021.

[6] Organização Mundial da Saúde. Mental Health Atlas 2023. Genebra: OMS, 2023.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a consulta médica.

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