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Humor controlado a pílula

A busca pela felicidade artificial só cresce em Blumenau. Aumenta à pílulas. De cápsula em cápsula, a distribuição de fluoxetina na rede pública municipal de saúde subiu 71% em sete anos, cerca de 12 vezes mais que o crescimento da população no mesmo período.

Em 2013, as unidades de saúde de Blumenau distribuíram 204.827 comprimidos do antidepressivo a cada mês em média. A Secretaria de Saúde não tem o número de pessoas que usam o medicamento e ainda trabalha em um levantamento completo.

No entanto, dividindo os comprimidos pela população, é como se todos os meses quase 65% dos blumenauenses fossem a um posto de saúde buscar uma drágea do remédio.

Somando Blumenau a outras quatro cidades do Vale do Itajaí _ Gaspar, Indaial, Pomerode e Timbó _, a distribuição dos comprimidos chega perto das
290 mil drágeas mensalmente. O psiquiatra Juliano Fonseca Tonello explica que a medicação foi criada para tratar casos de depressão, mas hoje é usada no combate a diversas doenças.

As indicações médicas da fluoxetina vão desde depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) até patologias como ejaculação precoce, síndromes gastrointestinais e emagrecimento.

Integrante da diretoria do Conselho Regional de Medicina (Cremesc), Diogo Nei Ribeiro detalha que esta gama ampla de possíveis tratamentos faz com que a prescrição da fluoxetina não se limite aos psiquiatras, mas seja indicada por médicos de diversas especialidades. Outro fator citado por Tonello para o crescimento do uso do remédio são poucas reações adversas, se comparado a outros antidepressivos.

_ Também é preciso considerar que a depressão é a segunda causa de adoecimento no mundo. E, em 2030, a previsão é de que seja a principal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) _ acrescenta Tonello.

Especialista aponta que falta de lazer ajuda a elevar consumo. No entanto, o ambiente tem parte na ascendência do medicamento. Para o professor do curso de Ciências Sociais da Furb e mestre em Sociologia Política Nelson Garcia Santos, apesar de ter o 25º melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, Blumenau ainda oferece condições de vida frustrantes:

_ A cidade não tem emprego, lazer, mobilidade urbana e qualidade de vida para todos. É a dona de casa que não se realiza pela opressão, o marido germânico que não alcança um ideal esperado. As pessoas não procuram uma solução espontânea, mas médico e fluoxetina. A cidade se volta para o trabalho, bebe no Stammtisch e na Oktoberfest. Fora essas festas, as pessoas ficam numa ausência de lazer. Não há política pública de lazer nos bairros.

A diretora de Ações em Saúde de Blumenau, Andrea da Silva, cita as enchentes e tragédias de 2008 e 2011 como fatores que elevam o estresse da população e, por consequência, o uso de fluoxetina. Mas ela assegura que o município tem buscado trabalhar a questão conjuntamente com outras secretarias, além de desenvolver atividades focadas na saúde mental através do Centro de Atenção Psicossocial (Caps):

_ Sabemos que a redução da fluoxetina está vinculada à qualidade de vida como um todo. Existe, sim, interesse no aspecto de promover saúde.

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