Infantojuvenil

Saúde mental de crianças e adolescentes: como perceber quando é fase e quando é sinal

Seu filho está diferente?

Mais irritado, quieto, ansioso, isolado ou sem vontade de fazer as coisas de que gostava? Está dormindo ou comendo de forma diferente? Não quer mais ir à escola ou parece estar enfrentando dificuldades para lidar com situações que antes conseguia enfrentar?

Na infância e na adolescência, mudanças de humor e comportamento podem fazer parte do desenvolvimento. Mas, quando uma mudança persiste, se intensifica ou começa a interferir na rotina, pode ser um sinal de que a criança ou o adolescente está passando por algum tipo de sofrimento emocional e precisa de atenção.

A pergunta que muitos pais fazem é: como saber se é apenas uma fase ou se é hora de procurar ajuda?

Não existe uma resposta única. É preciso olhar para o conjunto: o que mudou, há quanto tempo, com que intensidade e quanto isso está afetando a vida da criança ou do adolescente.

Observar não significa procurar problemas em cada comportamento. Significa conhecer seu filho, perceber quando algo mudou e estar disponível para conversar.

Por que falar sobre saúde mental na infância e adolescência?

Infância e adolescência são períodos de muitas descobertas e mudanças. Escola, amizades, relações familiares, mudanças no corpo, desejo de autonomia, redes sociais e a construção da própria identidade fazem parte dessa trajetória e podem trazer desafios emocionais.

Na adolescência, essas transformações ganham ainda mais intensidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 7 adolescentes de 10 a 19 anos apresenta algum transtorno mental. Ansiedade, depressão e transtornos comportamentais estão entre as condições mais frequentes nessa faixa etária.

A OMS e o UNICEF também destacam a importância da identificação e do cuidado precoces: um terço das condições de saúde mental surge antes dos 14 anos e metade antes dos 18.

Isso não significa que toda alteração de humor ou comportamento seja sinal de transtorno mental. Significa que observar, conversar e buscar orientação quando necessário pode fazer diferença.

Fase ou sinal de sofrimento emocional?

Crianças e adolescentes podem ficar tristes, irritados, preocupados, mais quietos ou querer passar algum tempo sozinhos. Também podem ter períodos de maior sensibilidade diante de mudanças, frustrações ou conflitos.

O que merece atenção é quando uma mudança:

  • permanece por mais tempo do que seria esperado para aquela situação;
  • acontece com frequência ou aumenta de intensidade;
  • é muito diferente do comportamento habitual daquela criança;
  • aparece em diferentes ambientes, como casa e escola;
  • interfere no sono, alimentação, estudos, amizades ou atividades;
  • provoca sofrimento significativo;
  • faz com que a criança ou o adolescente deixe de fazer coisas que antes eram importantes para ele;
  • ou vem acompanhada de falas ou comportamentos relacionados à morte, desesperança ou vontade de desaparecer.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também chama atenção para mudanças como isolamento, alterações de comportamento, tristeza frequente, irritabilidade, ansiedade, sintomas físicos e queda no rendimento escolar.

Uma maneira simples de observar

Em vez de perguntar apenas “isso é normal?”, os pais podem começar por quatro perguntas:

O que mudou?

Há quanto tempo?

Com que intensidade?

O que essa mudança está impedindo meu filho de fazer?

Essas perguntas ajudam a transformar uma preocupação genérica em uma observação mais concreta.

Quais sinais merecem atenção?

O sofrimento emocional nem sempre aparece como tristeza. Em crianças e adolescentes, ele pode se manifestar no corpo, no comportamento, na escola, nas relações e também na maneira de falar.

Sinais no comportamento

Observe mudanças como:

  • isolamento ou afastamento de familiares e amigos;
  • perda de interesse por brincadeiras, esportes ou atividades que antes davam prazer;
  • irritabilidade ou explosões de raiva mais frequentes;
  • mudanças marcantes no jeito habitual de agir;
  • comportamentos muito mais impulsivos ou arriscados;
  • dificuldade crescente para lidar com situações comuns;
  • abandono de atividades ou compromissos;
  • queda importante no autocuidado.

Uma mudança isolada não significa necessariamente que exista um transtorno. O mais importante é observar o padrão e o impacto na vida da criança ou do adolescente.

Sinais no corpo

Às vezes, o corpo expressa aquilo que a criança ainda não consegue colocar em palavras.

Podem aparecer:

  • dores de cabeça frequentes;
  • dores de barriga;
  • náuseas;
  • cansaço persistente;
  • alterações importantes do sono;
  • mudança significativa no apetite;
  • perda ou ganho de peso sem explicação aparente;
  • queixas físicas recorrentes, principalmente quando não existe uma causa clínica identificada.

A SBP destaca que sintomas físicos, como dores de cabeça e dores abdominais, podem acompanhar situações de sofrimento emocional.

Isso não significa que sintomas físicos sejam “apenas emocionais”. Queixas persistentes devem ser avaliadas por um profissional de saúde, que poderá investigar causas físicas e emocionais.

Sinais na escola

A escola também pode revelar mudanças que nem sempre aparecem em casa.

Fique atento a:

  • queda significativa no rendimento;
  • dificuldade de concentração;
  • recusa ou resistência persistente em ir à escola;
  • faltas frequentes;
  • isolamento dos colegas;
  • conflitos que não eram habituais;
  • perda de interesse pelas atividades escolares;
  • mudança importante na participação em sala de aula.

É importante conversar com a escola quando houver uma mudança significativa. Professores e outros profissionais que convivem com a criança podem ajudar a identificar alterações que os pais não conseguem observar em casa.

Sinais nas palavras

Algumas crianças não conseguem dizer diretamente “não estou bem”.

Podem dizer:

“Ninguém gosta de mim.”

“Eu não aguento mais.”

“Não quero ir para a escola.”

“Queria sumir.”

“Nada faz sentido.”

“Seria melhor se eu não estivesse aqui.”

Frases como essas não devem ser automaticamente interpretadas como exagero, drama ou tentativa de chamar atenção.

É importante ouvir, perguntar e levar a sério.

Quando houver fala sobre morte, desaparecimento, desejo de morrer ou de se machucar, a orientação é buscar avaliação profissional imediatamente.

Como conversar com seu filho?

Uma conversa sobre saúde mental não precisa começar com uma pergunta difícil ou com uma tentativa de descobrir imediatamente “o que está acontecendo”.

Pode começar com uma observação.

Em vez de:

“O que você tem?”

experimente:

“Percebi que você está mais quieto ultimamente. Quer conversar?”

Ou:

“Notei que você não tem querido fazer as coisas de que gostava. Tem alguma coisa acontecendo?”

Ou simplesmente:

“Estou aqui se você quiser falar. Não precisa resolver tudo agora.”

Durante a conversa

Escute antes de tentar resolver

Nem toda conversa precisa terminar com uma solução. Às vezes, o primeiro passo é permitir que a criança ou o adolescente consiga falar sem medo de receber uma bronca ou uma crítica.

Evite minimizar

Frases como “isso é bobagem”, “na sua idade eu também passei por isso” ou “você tem tudo para ser feliz” podem fechar a conversa.

O sofrimento pode ser real mesmo quando o adulto não considera o problema proporcional à situação.

Não transforme a conversa em interrogatório

Perguntas sucessivas podem fazer com que o jovem se feche.

Dê espaço, respeite o tempo dele e mostre disponibilidade para continuar conversando.

Não tenha medo de perguntar diretamente sobre sofrimento

Quando existe uma preocupação concreta com autolesão ou suicídio, perguntar diretamente sobre isso não significa colocar uma ideia na cabeça da criança ou do adolescente. A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (AACAP) orienta que perguntas sobre pensamentos suicidas podem abrir espaço para que o jovem fale sobre aquilo que está vivendo.

Quando procurar ajuda profissional?

Os pais não precisam esperar que a situação fique grave para procurar orientação.

Uma avaliação pode ser indicada quando as mudanças são persistentes, intensas, causam sofrimento ou interferem de maneira importante na vida da criança ou do adolescente.

Também é importante buscar ajuda quando:

  • os sintomas estão prejudicando a escola;
  • o sono ou a alimentação mudaram significativamente;
  • a criança deixou de participar de atividades de que gostava;
  • há isolamento crescente;
  • as crises estão frequentes ou difíceis de manejar;
  • existem comportamentos de autolesão;
  • há uso de álcool ou outras drogas;
  • aparecem mudanças comportamentais importantes;
  • a criança ou o adolescente demonstra desesperança;
  • ou os pais simplesmente sentem que “meu filho não está sendo ele mesmo”.

A preocupação dos pais é uma informação importante. A AACAP destaca que pais e responsáveis estão frequentemente entre os primeiros a perceber alterações emocionais e comportamentais e podem procurar avaliação quando existe essa preocupação.

Não é necessário que os pais saibam qual é o diagnóstico. Essa investigação cabe aos profissionais de saúde.

E quando existe risco imediato?

Alguns sinais exigem atenção imediata.

Se uma criança ou adolescente disser que quer morrer, que pretende se matar ou se machucar, tiver um plano, apresentar comportamento de autolesão ou estiver em uma situação que represente risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e procure atendimento de emergência imediatamente.

Também não é o momento de discutir se aquilo é “sério” ou “apenas uma fase”.

A AACAP – American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (AACAP) recomenda avaliação imediata por profissional qualificado diante de pensamentos ou planos suicidas em crianças e adolescentes.

Saúde mental também é cuidado com a família

Quando uma criança ou adolescente está sofrendo, toda a família pode ser afetada.

Por isso, cuidar não significa apenas levar o filho a uma consulta. Significa também criar espaço para conversa, acompanhar a rotina, manter vínculos, observar mudanças e, quando necessário, buscar ajuda especializada.

A OMS destaca que ambientes familiares, escolares e comunitários seguros e acolhedores são importantes para o bem-estar mental de crianças e adolescentes.

Os pais não precisam ter todas as respostas.

Precisam estar disponíveis para perceber, conversar e procurar ajuda quando necessário.

Perguntas frequentes

Toda mudança de comportamento significa que meu filho tem um transtorno mental?

Não. Mudanças de humor e comportamento podem fazer parte do desenvolvimento e também podem acontecer diante de situações específicas, como conflitos, perdas, mudanças de escola ou outras situações de estresse.
O que merece atenção é a combinação de persistência, intensidade, mudança em relação ao comportamento habitual e impacto na rotina.

Meu filho está mais irritado. Devo procurar um psiquiatra?

A irritabilidade pode ter muitas causas e, isoladamente, não significa que exista um transtorno mental.
Observe se ela é frequente, intensa, diferente do padrão habitual e se está interferindo na escola, nos relacionamentos, no sono ou em outras áreas da vida. Se houver preocupação, converse com o pediatra ou procure avaliação de um profissional especializado em saúde mental infantojuvenil.

Criança pode ter ansiedade ou depressão?

Sim. Transtornos de ansiedade e depressão podem ocorrer na infância e adolescência. A manifestação pode ser diferente daquela observada em adultos, incluindo irritabilidade, alterações de sono, sintomas físicos, isolamento, dificuldades escolares e perda de interesse.
Somente uma avaliação profissional pode determinar se os sintomas correspondem a um transtorno.

Como saber se meu filho está sofrendo bullying?

Mudanças de comportamento, isolamento, tristeza, irritabilidade, ansiedade, queda no rendimento escolar e sintomas físicos podem aparecer entre os sinais associados ao bullying. A situação também pode ocorrer no ambiente virtual, por meio do cyberbullying.
Se houver suspeita, converse com seu filho sem culpá-lo e procure informações também junto à escola.

Falar sobre suicídio pode incentivar meu filho a se matar?

Não há razão para evitar a conversa por medo de “dar a ideia”. Quando existe uma preocupação concreta, perguntar de forma direta e acolhedora pode ajudar o jovem a falar sobre o que está acontecendo.
Se houver pensamento, intenção ou plano de suicídio, procure atendimento profissional imediatamente.

Quando devo procurar um psiquiatra infantojuvenil?

Quando houver mudanças persistentes ou intensas no comportamento, nas emoções ou na rotina, especialmente quando elas estiverem causando sofrimento ou prejuízo na vida escolar, familiar ou social.
Também pode ser indicado quando outros profissionais ou familiares identificam mudanças importantes e existe dúvida sobre a necessidade de avaliação especializada.

Meu filho não quer conversar. O que posso fazer?

Não transforme a conversa em uma cobrança.
Mostre que você está disponível, mantenha contato e procure oportunidades naturais para conversar. Se a mudança persistir ou houver sinais de sofrimento importantes, procure orientação profissional mesmo que seu filho não consiga explicar o que está acontecendo.

Prestar atenção também é uma forma de cuidar

Nem toda mudança é um problema. Nem todo problema precisa ser enfrentado sozinho.

Na infância e na adolescência, perceber uma mudança, conversar sobre ela e procurar orientação quando necessário pode ajudar a identificar o sofrimento antes que ele se agrave.

Se você percebeu que seu filho está diferente, não precisa esperar ter certeza sobre o que está acontecendo para pedir ajuda.

Preste atenção aos sinais. Converse. Acolha. E, quando necessário, procure ajuda profissional.

Como o Hospital Santa Mônica pode ajudar

O Hospital Santa Mônica oferece atendimento especializado em saúde mental para crianças e adolescentes a partir dos 8 anos, além de atendimento para adultos.

A avaliação e o cuidado são definidos de acordo com as necessidades de cada paciente, com acompanhamento multiprofissional e retaguarda médico-hospitalar.

Quando há indicação de internação, ela pode fazer parte de um plano terapêutico destinado a oferecer cuidado, proteção e suporte em situações que exigem acompanhamento mais intensivo.

Hospital Santa Mônica – Hospital Psiquiátrico em São Paulo

📍 Itapecerica da Serra – SP
☎ (11) 4668-7455
📲 WhatsApp: (11) 98657-4262

Se você está preocupado com uma mudança no comportamento ou no estado emocional do seu filho, converse com nossa equipe.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental health of adolescents. Atualizado em 1º de setembro de 2025.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS) e UNICEF. Mental Health of Children and Young People: Service Guidance. 2024.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Questões sobre Saúde Mental na Infância. Atualizado em novembro de 2025.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Saúde Mental na Adolescência: O que os pais podem fazer e quando devem procurar ajuda? Atualizado em novembro de 2025.
  • American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (AACAP). When To Seek Help For Your Child.
  • American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (AACAP). Suicide Resource Center. Atualizado em setembro de 2026.

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