Saúde Mental nas Corporações

Funcionários exaustos, empresas improdutivas: o papel da atividade física na saúde mental corporativa

Quando o corpo para de se mover, a mente começa a adoecer — e a empresa paga a conta

Médica convidada
Dra. Luciana Mancini Bari
Revisão Clínica
Dra. Luciana Mancini Bari

Médica com foco em saúde mental, parceira do Programa Saúde Mental nas Corporações.

CRM 180901

A reunião começa às nove da manhã, mas o gerente sentado à cabeceira da mesa já não consegue sustentar atenção por mais de alguns minutos. Dorme mal há semanas. Responde mensagens automaticamente. Esquece tarefas simples. Passa mais de dez horas por dia sentado diante da tela. Ainda entrega resultados — mas à custa de um desgaste silencioso que, cedo ou tarde, cobrará seu preço.

Nas empresas, a exaustão costuma ser interpretada como problema emocional ou comportamental. Mas a ciência mostra que existe um componente biológico importante por trás da perda de foco, irritabilidade, queda de produtividade e adoecimento mental: o corpo humano não foi projetado para permanecer imóvel durante grande parte do dia.

A ausência de atividade física regular está associada ao aumento do estresse fisiológico, à piora da regulação emocional, à redução da capacidade cognitiva e ao maior risco de ansiedade, depressão e burnout. O sedentarismo impacta diretamente o funcionamento cerebral — e isso interfere na maneira como profissionais pensam, decidem, lidam com pressão e sustentam performance ao longo do tempo.

O problema deixou de ser individual. Tornou-se organizacional.

Segundo a World Health Organization, transtornos mentais relacionados ao trabalho geram perda global estimada em US$ 1 trilhão por ano em produtividade.

Mais do que discutir bem-estar, empresas passaram a discutir sustentabilidade humana da operação.

O que acontece no cérebro sob estresse crônico

O estresse contínuo ativa de forma persistente o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), sistema responsável pela resposta fisiológica ao estresse. Como consequência, o organismo mantém níveis elevados de cortisol por períodos prolongados.

Em situações agudas, o cortisol é necessário para adaptação e sobrevivência. Mas, quando cronicamente elevado, passa a produzir efeitos negativos sobre o cérebro, especialmente em regiões relacionadas à memória, atenção, aprendizagem e regulação emocional.

Pesquisas em neurociência associam exposição prolongada ao estresse a alterações funcionais em estruturas como córtex pré-frontal e hipocampo — áreas essenciais para planejamento, tomada de decisão e controle emocional.

O resultado aparece no cotidiano corporativo:

  • dificuldade de concentração;
  • piora da memória operacional;
  • irritabilidade;
  • fadiga persistente;
  • redução da criatividade;
  • menor tolerância à pressão.

Não se trata apenas de “cansaço”. Trata-se de sobrecarga neurobiológica.

Exercício físico e saúde mental: o que a ciência já demonstrou

A atividade física atua como reguladora de diversos sistemas biológicos ligados ao humor e à cognição.

Durante o exercício, ocorre aumento da liberação de neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar, como serotonina, dopamina e noradrenalina. Além disso, o movimento estimula a produção do BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), proteína associada à neuroplasticidade e à proteção neuronal.

Uma das maiores análises populacionais sobre o tema foi publicada no The Lancet Psychiatry e avaliou dados de mais de 1,2 milhão de pessoas nos Estados Unidos. O estudo mostrou que indivíduos fisicamente ativos relataram menos dias de pior saúde mental quando comparados aos sedentários.

Outra revisão ampla, publicada em 2023 no British Journal of Sports Medicine, concluiu que a atividade física apresenta efeito significativo na redução de sintomas de depressão e ansiedade, especialmente quando associada ao acompanhamento clínico adequado.

Os efeitos são observados não apenas em atletas ou programas intensivos. Pequenas mudanças de rotina já demonstram impacto relevante sobre disposição, qualidade do sono, energia e clareza mental.

Quanto de atividade física é necessário?

A Organização Mundial da Saúde recomenda entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada para adultos, além de fortalecimento muscular regular.

Na prática, isso pode incluir:

  • caminhada;
  • bicicleta;
  • dança;
  • musculação;
  • natação;
  • exercícios funcionais;
  • esportes recreativos.

Mais importante do que intensidade extrema é a regularidade.

Estudos recentes mostram que reduzir períodos prolongados sentado e inserir movimento ao longo do dia já produz benefícios relevantes para saúde cardiovascular, metabólica e mental.

O maior obstáculo, hoje, não costuma ser conhecimento médico. É cultura organizacional.

O sedentarismo corporativo virou um problema de produtividade

As transformações recentes do trabalho aumentaram drasticamente o tempo sedentário da população economicamente ativa.

Reuniões virtuais sucessivas, jornadas prolongadas, excesso de telas e dificuldade de desconexão reduziram o movimento corporal cotidiano. Em muitos ambientes corporativos, profissionais passam mais de dez horas sentados diariamente.

O impacto vai além da saúde física.

A baixa atividade física está associada a:

  • maior fadiga mental;
  • pior qualidade do sono;
  • menor engajamento;
  • aumento de sintomas ansiosos;
  • maior risco de afastamento por transtornos mentais.

O fenômeno do presenteísmo — quando o colaborador está fisicamente presente, mas cognitivamente exausto — tornou-se uma das principais perdas invisíveis das organizações modernas.

Relatório global da Gallup 2026 mostrou que apenas 23% dos trabalhadores no mundo se consideram engajados no trabalho.

Em muitos casos, a queda de performance não decorre de falta de competência ou comprometimento. O organismo simplesmente entrou em estado de esgotamento.

Alimentação, energia cerebral e saúde mental

Atividade física e alimentação caminham juntas na manutenção da saúde mental.

O cérebro consome cerca de 20% da energia do organismo. Dietas baseadas em ultraprocessados, excesso de açúcar e refeições desorganizadas favorecem oscilações glicêmicas que impactam diretamente concentração, humor e disposição.

Na rotina corporativa, isso aparece em forma de:

  • sonolência após refeições;
  • irritabilidade;
  • dificuldade de foco;
  • fadiga mental;
  • aumento do consumo de estimulantes.

A combinação entre sedentarismo, privação de sono e alimentação inadequada cria um ambiente fisiológico propício ao adoecimento emocional.

Por isso, programas corporativos modernos de saúde mental passaram a integrar:

O que as empresas podem fazer na prática

Promover saúde mental corporativa não significa apenas oferecer convênio ou palestra eventual.

As medidas mais eficazes costumam envolver mudança cultural e incentivo cotidiano ao movimento.

Algumas estratégias com evidência positiva incluem:

Pausas ativas

Intervalos curtos ao longo da jornada para alongamento, caminhada e mobilidade reduzem fadiga física e mental.

Reuniões em movimento

Reuniões em movimento (walking meetings) ajudam a reduzir tempo sedentário e melhoram atenção e criatividade.

Respeito aos horários de descanso

Evitar reuniões em horários críticos para alimentação, atividade física e recuperação.

Incentivo ao deslocamento ativo

Escadas, bicicleta e trajetos curtos a pé devem ser estimulados.

Programas integrados de saúde

Combinar atividade física, acompanhamento psicológico e orientação nutricional tende a produzir resultados mais consistentes.

Lideranças que dão exemplo

Gestores influenciam diretamente a cultura da equipe. Quando o líder normaliza pausas, autocuidado e equilíbrio, reduz-se o estigma associado ao cuidado com saúde mental.

O papel do médico do trabalho

Com a atualização da NR-1 e a ampliação da discussão sobre riscos psicossociais, o médico do trabalho ganhou papel ainda mais estratégico dentro das empresas.

Além de avaliar doenças ocupacionais tradicionais, tornou-se fundamental identificar:

  • sinais precoces de esgotamento;
  • impacto do sedentarismo;
  • alterações de sono;
  • risco cardiovascular;
  • sofrimento psíquico relacionado ao trabalho.

A prescrição de atividade física, associada a orientação multiprofissional, passou a integrar de maneira cada vez mais consistente os programas corporativos de prevenção.

Sinais de alerta que empresas não deveriam ignorar

Existem comportamentos que frequentemente aparecem antes do afastamento formal:

  • fadiga persistente;
  • dificuldade crescente de concentração;
  • irritabilidade frequente;
  • isolamento progressivo;
  • alterações importantes de sono;
  • aumento do consumo de álcool ou estimulantes;
  • perda de produtividade;
  • desmotivação persistente;
  • presenteísmo.

Esses sinais não significam necessariamente um transtorno mental instalado. Mas indicam que o organismo pode estar funcionando sob estresse crônico.

Quanto mais precoce a intervenção, maior a chance de recuperação sem necessidade de afastamentos prolongados.

VOZ DO ESPECIALISTA HSM
O que vejo na prática clínica é que a maioria dos pacientes que chegam ao hospital com quadros de burnout, depressão ou ansiedade severa tem em comum duas coisas: meses ou anos sem prática de atividade física regular e uma alimentação de baixíssima qualidade. Não é coincidência — é fisiopatologia. O corpo manda sinais antes da mente entrar em colapso. O papel da empresa é aprender a ler esses sinais antes que o colaborador precise de afastamento. Dra. Luciana Mancini Bari — Médica com foco em Saúde Mental | Parceira do Programa Saúde Mental nas Corporações — Hospital Santa Mônica  

O Hospital Santa Mônica e a saúde mental corporativa

Com 57 anos de história e a única certificação ONA Nível 3 entre hospitais psiquiátricos privados do Estado de São Paulo, o Hospital Santa Mônica oferece mais do que tratamento clínico especializado. Oferece um modelo integrado de cuidado que pode ser parceiro estratégico de empresas comprometidas com a saúde mental de suas equipes.

O que o HSM oferece às empresasDiferencial
Programa Saúde Mental nas CorporaçõesAvaliação clínica, suporte psicológico e acompanhamento integrado para equipes
Equipe multidisciplinar especializadaPsiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e terapeuta ocupacional
Internação, hospital-dia e ambulatórioContinuidade de cuidado em diferentes níveis de complexidade
Protocolos baseados em evidências internacionaisTratamentos atualizados conforme guidelines da APA, WPA e NICE
Suporte a familiares e empresas durante o tratamentoComunicação ética e orientação para retorno ao trabalho
Certificação ONA Nível 3 OuroÚnica entre hospitais psiquiátricos privados de SP — qualidade auditada

Conclusão

O modelo corporativo baseado em exaustão permanente se tornou biologicamente insustentável.

O cérebro humano depende de movimento, recuperação, sono adequado e equilíbrio fisiológico para manter atenção, criatividade, estabilidade emocional e capacidade de decisão.

Ignorar isso tem custo:

  • mais afastamentos;
  • mais rotatividade;
  • mais presenteísmo;
  • menos produtividade;
  • menos engajamento.

Atividade física não é benefício periférico. É intervenção baseada em evidência científica com impacto direto sobre saúde mental e performance organizacional.

Empresas que entendem isso não estão apenas promovendo bem-estar. Estão protegendo a capacidade cognitiva e emocional das pessoas que sustentam seus resultados.

Entre em contato com a Central de Relacionamento Empresas, teremos muito prazer em ajudar!

Perguntas Frequentes sobre Atividade Física e Saúde Mental Corporativa

Qual a relação entre sedentarismo e queda de performance no trabalho?

A ausência de atividade física está associada ao aumento do estresse fisiológico, pior qualidade do sono, fadiga mental e redução da capacidade cognitiva. O estresse crônico pode elevar os níveis de cortisol e comprometer funções do córtex pré-frontal, região cerebral relacionada ao foco, planejamento, tomada de decisão e regulação emocional. Na prática, trabalhadores sedentários tendem a apresentar mais dificuldade de concentração, maior sensação de esgotamento e pior gestão da pressão cotidiana. Não se trata apenas de motivação: existe um impacto biológico mensurável sobre o funcionamento cerebral.

Quanto de exercício físico é necessário para ter impacto na saúde mental?

A World Health Organization recomenda entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada para adultos, além de fortalecimento muscular regular. Mesmo assim, estudos mostram que pequenas quantidades de movimento ao longo do dia já produzem benefícios importantes para disposição, humor, sono e função cognitiva. No ambiente corporativo, pausas ativas, caminhadas curtas, uso de escadas e reuniões em movimento ajudam a reduzir o tempo sedentário e favorecem a saúde mental mesmo sem programas intensivos de academia.
Fonte: WHO – Physical Activity Guidelines

Como a alimentação interfere na saúde mental dos colaboradores?

O cérebro consome aproximadamente 20% da energia total do organismo. Dietas ricas em ultraprocessados, excesso de açúcar e refeições desorganizadas favorecem oscilações glicêmicas que podem impactar concentração, disposição e estabilidade do humor. Na rotina corporativa, isso costuma aparecer como fadiga mental, irritabilidade, sonolência e dificuldade de foco. A literatura científica mostra que estratégias integradas — envolvendo atividade física, alimentação equilibrada e manejo do estresse — tendem a produzir resultados mais consistentes para saúde mental do que intervenções isoladas.

O que é presenteísmo e como ele se relaciona com a falta de movimento?

Presenteísmo é a situação em que o colaborador está fisicamente presente, mas com desempenho cognitivo e emocional reduzido. Diferentemente do absenteísmo, o trabalhador continua comparecendo ao trabalho, porém com baixa capacidade de concentração, produtividade e tomada de decisão. Fatores como sedentarismo, privação de sono, estresse crônico e fadiga mental contribuem diretamente para esse quadro. Empresas frequentemente percebem queda de rendimento antes mesmo do afastamento formal por adoecimento.

Quais são os primeiros passos para uma empresa criar um programa de movimento para seus colaboradores?

As iniciativas mais acessíveis costumam começar com pausas ativas estruturadas durante a jornada, incentivo à redução do tempo sentado e campanhas internas de conscientização sobre saúde física e mental. A partir disso, a empresa pode avançar para programas integrados envolvendo atividade física, suporte psicológico, orientação nutricional e ações de promoção de bem-estar. O mais importante é que as iniciativas façam parte da cultura organizacional — e não apenas de ações pontuais.

Como a NR-1 atualizada se relaciona com atividade física e saúde mental nas empresas?

A atualização da NR-1 reforçou a necessidade de identificação e gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Isso inclui fatores como sobrecarga, estresse ocupacional, jornadas excessivas e condições organizacionais que favoreçam adoecimento mental. Embora a norma não obrigue diretamente programas de atividade física, empresas passaram a olhar com mais atenção para estratégias preventivas relacionadas à saúde integral dos colaboradores, incluindo redução do sedentarismo e promoção de hábitos saudáveis. Fonte oficial: NR-1 – Ministério do Trabalho

O Hospital Santa Mônica oferece suporte estruturado para empresas em saúde mental corporativa?

Sim. O Hospital Santa Mônica mantém programas voltados à saúde mental corporativa, incluindo avaliação clínica especializada, suporte psicológico, orientação multiprofissional e acompanhamento de colaboradores. A instituição possui certificação ONA nível 3 e atua com protocolos baseados em evidências científicas para prevenção, acompanhamento e reintegração de profissionais.

Como abordar um colaborador que apresenta sinais de exaustão sem constrangê-lo?

A abordagem deve ser empática, reservada e centrada no cuidado, evitando julgamentos ou interpretações precipitadas. O ideal é que a liderança converse de forma privada, observando mudanças objetivas no comportamento ou desempenho e oferecendo apoio concreto. Frases como:
“Percebi que você parece sobrecarregado nas últimas semanas. Gostaria de entender como podemos ajudar.”
costumam ser mais acolhedoras do que abordagens focadas apenas em cobrança de resultados. O encaminhamento para suporte especializado deve ser facilitado, nunca imposto.

Referências

  1. Chekroud SR et al. Association between physical exercise and mental health in 1.2 million individuals in the USA between 2011 and 2015. The Lancet Psychiatry. 2018.
    PubMed – Lancet Psychiatry
  2. Singh B et al. Physical activity and exercise for depression and anxiety disorders: an umbrella review. British Journal of Sports Medicine. 2023.
    BJSM – umbrella review
  3. World Health Organization. Mental health at work.
    WHO – Mental health at work
  4. World Health Organization. Guidelines on physical activity and sedentary behaviour.
    WHO – Physical activity guidelines
  5. McEwen BS. Protective and damaging effects of stress mediators. Dialogues in Clinical Neuroscience. 2006.
    PubMed – estresse e cérebro
  6. Gallup. State of the Global Workplace Report. 2026.
    Gallup – relatório global
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