Publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2020 | Atualizado em 20 de maio de 2026 por Hospital Santa Mônica
Dra. Luciana Mancini Bari
Médica com foco em saúde mental, parceira do Programa Saúde Mental nas Corporações.
CRM 180901O que O que é ayahuasca?
A ayahuasca é uma bebida psicoativa de origem amazônica utilizada há séculos por povos indígenas em rituais espirituais, religiosos e de cura. O chá é preparado principalmente a partir da combinação de duas plantas:
- o cipó Banisteriopsis caapi (jagube ou mariri);
- as folhas da Psychotria viridis (chacrona).
O termo “ayahuasca” vem do quéchua e costuma ser traduzido como “cipó dos espíritos” ou “vinho dos mortos”.
Nas últimas décadas, a bebida ultrapassou os contextos indígenas e passou a ser utilizada em cerimônias religiosas urbanas, práticas espiritualistas e até em ambientes que defendem seu uso terapêutico. Esse crescimento também aumentou o interesse científico sobre seus efeitos no cérebro — e os alertas médicos sobre os riscos associados ao consumo.
Embora muitas pessoas associem a ayahuasca a autoconhecimento e espiritualidade, especialistas ressaltam que a bebida contém substâncias com ação direta no sistema nervoso central e potencial para desencadear efeitos psiquiátricos, neurológicos e cardiovasculares importantes.
Como a ayahuasca age no cérebro?
A principal substância psicoativa da ayahuasca é a DMT (dimetiltriptamina), um potente psicodélico natural.
A DMT atua principalmente nos receptores serotoninérgicos 5-HT2A, alterando:
- percepção;
- cognição;
- emoções;
- memória;
- processamento sensorial;
- consciência corporal e espacial.
Normalmente, a DMT seria rapidamente degradada no organismo pela enzima monoamina oxidase (MAO). Porém, a ayahuasca contém beta-carbolinas — como harmina, tetrahidro-harmina e harmalina — que inibem essa enzima e permitem que a substância alcance o cérebro.
É justamente essa combinação que produz:
- visões intensas;
- experiências místicas;
- alterações profundas da percepção;
- sensação de dissociação;
- estados emocionais amplificados.
Os efeitos geralmente começam entre 30 e 90 minutos após o consumo e podem durar de 4 a 10 horas.
Ayahuasca é droga?
Do ponto de vista farmacológico, sim.
A bebida contém substâncias psicoativas capazes de alterar:
- consciência;
- humor;
- percepção;
- funcionamento cerebral.
Isso não significa automaticamente ilegalidade. No Brasil, o uso religioso da ayahuasca é permitido pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), desde que siga critérios específicos e não tenha finalidade comercial.
Já o uso terapêutico ainda não possui aprovação formal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Quais são os efeitos imediatos da ayahuasca?
Os efeitos variam muito conforme:
- dose;
- vulnerabilidade psicológica;
- ambiente;
- histórico psiquiátrico;
- uso de medicamentos;
- expectativa emocional do usuário.
Efeitos físicos mais comuns
Entre os efeitos físicos relatados estão:
- náuseas;
- vômitos;
- diarreia;
- tremores;
- suor excessivo;
- aumento da pressão arterial;
- taquicardia;
- tontura;
- dilatação das pupilas.
Em alguns contextos ritualísticos, o vômito é interpretado como “purificação”. No entanto, clinicamente, trata-se de um efeito gastrointestinal provocado pela ação da substância no organismo.
Efeitos psicológicos mais comuns
No aspecto mental e emocional, o usuário pode experimentar:
- euforia;
- sensação de transcendência;
- intensificação emocional;
- alterações sensoriais;
- distorção temporal;
- sensação de unidade;
- visões e imagens vívidas;
- medo intenso;
- paranoia;
- ansiedade extrema.
As experiências podem ser positivas, neutras ou profundamente perturbadoras.
Quais são os perigos da ayahuasca?
Apesar da crescente popularização da bebida, especialistas alertam que a ayahuasca não é isenta de riscos. Em pessoas vulneráveis, ela pode desencadear eventos psiquiátricos e clínicos graves.
1. Risco de surtos psicóticos
Esse é um dos principais riscos associados ao uso da ayahuasca.
Estudos científicos descrevem casos de:
- surtos psicóticos;
- paranoia grave;
- delírios;
- alucinações persistentes;
- desorganização do pensamento;
- comportamento agressivo;
- perda de contato com a realidade.
O risco é maior em pessoas com:
- esquizofrenia;
- transtorno bipolar;
- histórico familiar de psicose;
- transtornos psicóticos prévios;
- predisposição genética.
Segundo revisões publicadas em periódicos como Frontiers in Psychiatry e Journal of Psychedelic Studies, substâncias psicodélicas podem funcionar como gatilho para episódios psiquiátricos em indivíduos vulneráveis.
2. Síndrome serotoninérgica
A ayahuasca pode interagir perigosamente com antidepressivos e outras medicações psiquiátricas.
O risco mais grave é a síndrome serotoninérgica, condição potencialmente fatal causada pelo excesso de serotonina no cérebro.
Os sintomas incluem:
- febre;
- hipertensão;
- agitação intensa;
- confusão mental;
- tremores;
- rigidez muscular;
- convulsões;
- arritmias.
O risco aumenta principalmente em pessoas que utilizam:
- fluoxetina;
- sertralina;
- escitalopram;
- venlafaxina;
- antidepressivos tricíclicos;
- outros inibidores da MAO.
3. Crises de ansiedade e pânico
Nem todas as experiências psicodélicas são percebidas como positivas.
Muitos usuários relatam:
- sensação de morte iminente;
- terror psicológico;
- perda de identidade;
- despersonalização;
- dissociação intensa;
- ataques de pânico.
Pessoas com:
- ansiedade grave;
- transtorno do estresse pós-traumático – TEPT;
- traumas psicológicos;
- instabilidade emocional
podem apresentar maior risco de experiências negativas.
4. Alterações cardiovasculares
A bebida também pode provocar:
- aumento da frequência cardíaca;
- hipertensão;
- dor torácica;
- arritmias.
Isso representa maior perigo para indivíduos com:
- hipertensão arterial;
- doenças cardíacas;
- histórico de AVC;
- problemas vasculares.
Há relatos internacionais de emergências médicas após o consumo de ayahuasca em ambientes sem suporte adequado.
5. Convulsões e complicações neurológicas
Embora menos frequentes, existem relatos de:
- convulsões;
- alterações neurológicas agudas;
- desorientação grave;
- perda de consciência.
O risco pode ser maior em pessoas com epilepsia ou predisposição neurológica.
6. Flashbacks e efeitos persistentes
Algumas pessoas desenvolvem sintomas prolongados após experiências psicodélicas.
Entre eles:
- ansiedade persistente;
- sensação de irrealidade;
- alterações perceptivas;
- despersonalização;
- flashbacks;
- HPPD (Hallucinogen Persisting Perception Disorder).
Nesse transtorno, alterações visuais podem reaparecer semanas ou meses depois do uso.
Ayahuasca pode causar esquizofrenia?
A ayahuasca não “cria” esquizofrenia isoladamente. Porém, pode desencadear surtos em pessoas geneticamente predispostas.
Esse é um dos pontos mais importantes destacados pela psiquiatria moderna.
Muitas vezes, o indivíduo já possui vulnerabilidade biológica silenciosa e o uso de substâncias psicodélicas atua como fator precipitante.
Por isso, pessoas com:
- histórico familiar de psicose;
- transtorno bipolar;
- esquizofrenia;
- surtos prévios
devem evitar completamente o uso.
Ayahuasca pode matar?
Embora seja considerada menos tóxica do que diversas drogas ilícitas, existem relatos de mortes associadas:
- a complicações cardíacas;
- acidentes;
- interações medicamentosas;
- intoxicações;
- suicídios;
- surtos psicóticos.
O perigo aumenta em ambientes sem avaliação médica, sem suporte clínico e sem controle sobre composição ou dose da bebida.
O que a ciência diz sobre os possíveis benefícios da ayahuasca?
Nos últimos anos, universidades e centros de pesquisa passaram a investigar o potencial terapêutico de substâncias psicodélicas.
Instituições como:
- Johns Hopkins University
- Imperial College London
- Universidade Federal do Rio Grande do Norte
desenvolvem pesquisas sobre psicodélicos em transtornos mentais.
Ayahuasca e depressão
Alguns estudos preliminares sugerem possível efeito antidepressivo rápido em pacientes com depressão resistente.
Pesquisas brasileiras identificaram redução temporária de sintomas depressivos após sessões controladas com ayahuasca.
Entretanto:
- os estudos ainda possuem amostras pequenas;
- faltam dados de longo prazo;
- ainda não existe consenso científico;
- os riscos psiquiátricos permanecem relevantes.
A World Health Organization ressalta que substâncias psicodélicas ainda necessitam de mais evidências robustas de segurança e eficácia antes de serem incorporadas amplamente aos tratamentos clínicos.
Ayahuasca ajuda na ansiedade?
Alguns participantes de estudos relatam:
- sensação de bem-estar;
- redução de sofrimento emocional;
- experiências de significado existencial.
Porém, especialistas alertam que isso não significa segurança clínica universal.
Em determinadas pessoas, a bebida pode piorar ansiedade, desencadear crises emocionais graves e provocar descompensações psiquiátricas.
Existe comprovação científica para câncer, Parkinson ou imunidade?
Esse é um ponto importante.
Na internet, circulam alegações de que a ayahuasca:
- curaria câncer;
- trataria Parkinson;
- aumentaria imunidade;
- combateria vírus e parasitas.
Até o momento, não existem evidências clínicas robustas que comprovem esses efeitos como tratamentos médicos estabelecidos.
Alguns estudos laboratoriais e experimentais investigam possíveis mecanismos biológicos, mas isso não significa eficácia terapêutica comprovada em humanos.
Especialistas alertam que abandonar tratamentos médicos convencionais em favor da ayahuasca pode trazer riscos graves à saúde.
Ayahuasca vicia?
A ayahuasca não apresenta, até o momento, evidências robustas de dependência química clássica como:
- álcool;
- cocaína;
- nicotina;
- opioides.
No entanto, pode ocorrer dependência psicológica, principalmente quando a pessoa passa a utilizar experiências alteradas de consciência como forma de fuga emocional.
Segundo a psiquiatra Dra. Luciana Mancini Bari, do Hospital Santa Mônica:
“Pessoas vulneráveis à dependência podem desenvolver compulsão por substâncias que alteram a consciência, mesmo sem dependência química clássica.”
O uso da ayahuasca é legal no Brasil?
Sim, exclusivamente para fins religiosos e ritualísticos.
O uso é regulamentado pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas por meio da Resolução nº 1/2010.
A regulamentação:
- proíbe comercialização;
- veta turismo irresponsável;
- recomenda proteção de pessoas vulneráveis;
- orienta cuidados de segurança.
Importante:
a ayahuasca não possui aprovação médica formal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para tratamento psiquiátrico.
Quem não deve usar ayahuasca?
O uso é contraindicado para:
- pessoas com esquizofrenia;
- transtorno bipolar;
- histórico de psicose;
- doenças cardíacas;
- hipertensão;
- epilepsia;
- gestantes;
- adolescentes;
- pessoas em uso de antidepressivos;
- indivíduos com dependência química ativa.
Quando procurar ajuda médica?
É fundamental buscar avaliação profissional diante de:
- paranoia;
- alucinações persistentes;
- agressividade;
- pensamentos suicidas;
- crises emocionais intensas;
- convulsões;
- confusão mental;
- dependência psicológica;
- piora psiquiátrica após uso da substância.
O tratamento pode envolver:
- psiquiatria;
- psicoterapia;
- controle medicamentoso;
- suporte multidisciplinar;
- internação psiquiátrica em casos graves.
Perguntas frequentes sobre ayahuasca
Do ponto de vista farmacológico, sim. A bebida contém substâncias psicoativas que alteram a percepção, o humor e a consciência.
Embora seja considerada menos tóxica do que outras drogas ilícitas, existem relatos de mortes associadas ao uso, principalmente por:
– interações medicamentosas;
– complicações cardiovasculares;
– acidentes;
– surtos psiquiátricos;
– uso inadequado.
Sim. A DMT é um potente alucinógeno capaz de provocar alterações intensas de percepção visual, auditiva e emocional.
Não sem supervisão médica e protocolos clínicos específicos. O uso por conta própria pode piorar sintomas, desencadear crises ou causar interações medicamentosas perigosas.
Não. Até o momento, a bebida não possui aprovação ampla como tratamento psiquiátrico convencional no Brasil.
Os efeitos costumam durar entre 4 e 10 horas.
Nem sempre. Exames toxicológicos convencionais geralmente não detectam DMT rotineiramente.
Não. Substâncias naturais também podem provocar intoxicações, efeitos psiquiátricos graves e complicações clínicas.
Conclusão
A ayahuasca é uma substância complexa que envolve tradição ancestral, espiritualidade, neurociência e saúde mental. Embora pesquisas recentes investiguem possíveis aplicações terapêuticas, os riscos físicos e psiquiátricos ainda exigem cautela.
O principal erro é acreditar que, por ser natural ou utilizada em rituais religiosos, a bebida seja automaticamente segura.
Pessoas emocionalmente vulneráveis, com transtornos mentais ou em uso de medicamentos psiquiátricos podem desenvolver complicações graves após o consumo.
Informação qualificada, acompanhamento profissional e responsabilidade são fundamentais diante de qualquer substância que atua diretamente sobre o cérebro.
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