Um olhar baseado em evidências sobre como a internação psiquiátrica, integrada ao tratamento da dependência química, oferece cuidado médico completo, apoio psicossocial e reinserção do paciente ao convívio familiar e comunitário.
O transtorno por uso de substâncias é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno de saúde crônico que exige tratamento contínuo e individualizado.
Segundo o Dr. Fabio José Beites, psiquiatra do Hospital Santa Mônica, CRM 93603 SP / RQE 57899, o programa de internação psiquiátrica no Hospital Santa Mônica, combina desintoxicação supervisionada, terapias psicossociais e abordagens integrativas para promover a recuperação.
A hospitalização, quando indicada, é parte de um plano terapêutico individualizado mais amplo, respeitando legislação brasileira e melhores práticas clínicas.
Contexto Clínico do Transtorno por Uso de Substâncias
A Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11), sistema global da Organização Mundial da Saúde para padronizar o registro, o diagnóstico e a notificação de doenças e agravos à saúde. Publicada em 2022, substitui a CID-10 e incorpora avanços científicos, tecnológicos e digitais, sendo a primeira versão totalmente online e multilíngue.
A CID-11 é fundamental para monitorar estatísticas de mortalidade e morbidade, orientar políticas públicas e integrar sistemas digitais de saúde em todo o mundo. No Brasil, sua implementação está prevista para 1º de janeiro de 2027.
O Transtorno por Uso de Substâncias é definido como um padrão de consumo que leva a prejuízo clinicamente significativo, perda de controle e consequências negativas persistentes.
Essa condição é complexa e crônica, demandando um modelo de cuidado que vá além da desintoxicação física — inclui avaliação médica contínua, apoio psicológico, reabilitação psicossocial e estratégias de prevenção de recaídas.
A classificação considera três elementos centrais:
1️⃣ Padrão persistente ou recorrente de uso
O consumo deixa de ser episódico e passa a apresentar regularidade e progressão, frequentemente com aumento de frequência ou quantidade.
2️⃣ Comprometimento do controle
Há dificuldade em:
- Reduzir ou interromper o uso
- Controlar a quantidade consumida
- Evitar recaídas após tentativas de abstinência
O desejo intenso (craving) é um marcador importante.
3️⃣ Consequências negativas
O uso passa a gerar:
- Prejuízo social (conflitos familiares, isolamento)
- Impacto ocupacional ou acadêmico
- Comprometimento físico ou psíquico
- Persistência do uso apesar de danos evidentes
A CID-11 diferencia níveis clínicos
Ela organiza o diagnóstico em categorias como:
- Episódio único de uso prejudicial
- Padrão prejudicial de uso
- Dependência de substância
Dependência, segundo a CID-11, envolve:
- Forte impulso ou compulsão para usar
- Prioridade ao uso em detrimento de outras atividades
- Persistência mesmo diante de prejuízos
- Evidências fisiológicas possíveis (tolerância e abstinência), mas não obrigatórias
Internação Psiquiátrica: Fundamentos Legais e Éticos no Brasil
No Brasil, a internação psiquiátrica é regulamentada pela Lei nº 10.216/2001, conhecida como marco da Reforma Psiquiátrica.
Essa lei prioriza o tratamento em serviços comunitários e só admite internação quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes, com direitos garantidos ao paciente e à família.
A legislação prevê três modalidades de internação:
- Voluntária: com consentimento do paciente;
- Involuntária: sem consentimento, a pedido da família ou responsável, mediante relatório médico e comunicação ao Ministério Público em até 72 h;
- Compulsória: determinada por decisão judicial.
Abordagem Multidisciplinar no Hospital Santa Mônica
No Hospital Santa Mônica, o tratamento do Transtorno por Uso de Substâncias em regime de internação psiquiátrica ocorre a partir dos 8 anos de idade e é estruturado por uma equipe integrada — composta por psiquiatras, clínicos, nutrólogo, psicólogos, nutricionista, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, terapeutas especializados em dependência química, enfermeiros e profissionais de apoio — que atuam de forma coordenada para atender às necessidades específicas de cada paciente.
1. Avaliação Clínica e Diagnóstico Integrado
No momento da admissão, o paciente passa por uma avaliação médica clínica e psiquiátrica detalhada para identificar:
- histórico de uso de substâncias,
- condições médicas associadas,
- presença de transtornos mentais coexistentes (ex.: ansiedade, depressão), e
- riscos clínico-psiquiátricos.
Esse processo fundamenta um plano terapêutico individualizado, permitindo intervenções mais eficazes e seguras.
2. Plano Terapêutico Individual
O Plano Terapêutico Individual (PTI) é um planejamento clínico personalizado que organiza objetivos, intervenções e estratégias multidisciplinares conforme as necessidades do paciente durante a internação.
3. Desintoxicação e Manejo de Abstinência
O manejo da síndrome de abstinência é conduzido com supervisão médica rigorosa, com uso de medicação quando necessário, visando conforto e segurança clínica. O objetivo primário é estabilizar o paciente em um ambiente protegido, minimizando riscos de complicações e estratégias de afrontamento.
4. Intervenções Psicossociais
Durante a internação, o paciente participa de:
- Terapias individuais e em grupo, especialmente Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), voltada para a identificação de gatilhos e modificação de comportamentos de risco;
- Psicoeducação, para compreensão da dependência e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento;
- Terapia familiar, facilitando a comunicação e fortalecimento de vínculos, o que é um fator de proteção importante na recuperação.
- Terapia assistida por cães, integra o programa de internação como ferramenta complementar para promover regulação emocional, reduzir ansiedade e favorecer o engajamento terapêutico.
5. Atividades Complementares de Suporte
Além das terapias convencionais, o programa inclui atividades que promovem bem-estar, autoestima e habilidades adaptativas, como: arteterapia, musicoterapia, atividades físicas, yoga e grupos de reflexão. Essas abordagens reforçam a reintegração social e a construção de novos padrões saudáveis de vida.
6. Projeto de Vida
O projeto de vida é trabalhado durante a internação pelo assistente social, preparando o paciente para reinserção social e continuidade do cuidado após a alta.
7. Planejamento Pós-Alta e Continuidade do Cuidado
A internação visa estabilizar clinicamente o paciente, mas o tratamento da dependência química é contínuo. O Hospital Santa Mônica elabora, junto ao paciente e à família, um plano de alta que contempla:
- encaminhamento a serviços de saúde mental comunitários (ex.: CAPS-AD);
- acompanhamento ambulatorial psiquiátrico e psicológico;
- estratégias de prevenção de recaídas e suporte social.
A internação psiquiátrica no tratamento do transtorno por uso de substâncias, quando criteriosamente indicada, constitui uma etapa terapêutica essencial para estabilização clínica, manejo de comorbidades e reorganização psicossocial do paciente. O programa assistencial do Hospital Santa Mônica é estruturado com base em evidências, integração multidisciplinar e planejamento terapêutico individualizado, buscando alinhar segurança clínica, humanização do cuidado e continuidade terapêutica.
Psiquiatras e profissionais de saúde mental interessados em discutir casos, encaminhar pacientes ou conhecer o modelo assistencial do Hospital Santa Mônica podem entrar em contato com a Central de Relacionamento Médico para construção conjunta de estratégias terapêuticas. A colaboração entre serviços é fundamental para ampliar a qualidade do cuidado em dependência química e saúde mental.
FAQ – Perguntas e Respostas
1. Pergunta: O que é internação psiquiátrica no contexto de dependência química?
Resposta: É um regime de tratamento hospitalar em que o paciente recebe cuidados médicos intensivos, terapias e suporte psicossocial para estabilização e recuperação de um quadro grave de uso de substâncias.
2. Pergunta: Quando a internação é necessária?
Resposta: Quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes, o paciente apresenta risco para si ou para terceiros, ou há comprometimento clínico ou psiquiátrico grave.
3. Pergunta: A internação é uma punição?
Resposta: Não; ela é um cuidado de saúde baseado em evidências, com foco na segurança, estabilização e recuperação.
4. Pergunta: Quanto tempo dura a internação?
Resposta: A duração não é fixa e depende da gravidade do caso, resposta ao tratamento e necessidades individuais.
5. Pergunta: O paciente internado continua com suporte após a alta?
Resposta: Sim; o plano terapêutico inclui continuidade de cuidados psiquiátricos e psicossociais fora do hospital. O Hospital Santa Mônica conta com o Projeto de Vida que o paciente pode participar e ficar em acompanhamento durante 3 meses.
6. Pergunta: Familiares participam do tratamento?
Resposta: Sim; o envolvimento familiar é encorajado para promover suporte contínuo e melhorar resultados.
7. Pergunta: O paciente pode deixar a internação quando quiser?
Resposta: Na internação voluntária sim, mediante acordo clínico com o psiquiatra de referência do paciente, mas se deixar a internação por vontade própria sem a anuência do psiquiatra, caracteriza-se como Solicitação de Interrupção de Tratamento pelo Responsável pela Internação e/ou Familiar e, como interrompe o tratamento em curso e não segue a recomendação médica, não serão fornecidos: o Relatório de alta médica e a prescrição médica.
8. Pergunta: Existem terapias além da medicação?
Resposta: Sim; o tratamento inclui psicoterapia, terapias de grupo, atividades ocupacionais e treinamento de habilidades de enfrentamento.