Carla e Juliano viveram uma relação marcada pelo uso intenso de cocaína, conflitos e perda de controle. Entre recaídas, violência e isolamento, chegaram ao limite — até que uma gravidez mudou o rumo da história. Após internação e tratamento, reconstruíram a vida longe das drogas. Esta é a trajetória do casal.
Dependência química · Depoimento: casal em recuperação · Leitura: ~8 min
Cristina Collina
Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.
Comunicação em Saúde| RESPOSTA RÁPIDA — quando o vício afeta o casal |
| A dependência química em relacionamentos tende a se intensificar mutuamente. Carla e Juliano usavam cocaína diariamente, perderam estabilidade emocional e financeira e viviam em ciclos de conflito. A decisão pela internação, aliada ao tratamento estruturado, foi determinante para interromper o ciclo e permitir a reconstrução da vida familiar. |
| 2 pessoas em dependência ativa | 1 gravidez como ponto de virada | 1 decisão-chave buscar ajuda especializada |
O limite: entre a última dose e o pedido de ajuda
A cena que marca essa história é direta.
O casal aguardava, ao mesmo tempo, a ambulância para a internação e o traficante com a última dose de cocaína.
Ansiedade, urgência e ambivalência — características clássicas da dependência.
“A gente combinou o horário com a ambulância… e com o traficante.” – Carla e Juliano, casados, ex-pacientes do Hospital Santa Mônica
Esse é o retrato do conflito interno: querer parar, mas ainda não conseguir.
Quando o relacionamento gira em torno da droga
Carla e Juliano se conheceram em um contexto de tratamento anterior. Criaram vínculo rápido — sustentado por afinidade, mas também pelo uso de substâncias.
Após saírem da clínica, passaram a viver juntos.
O uso se tornou diário.
“O nosso uso era muito forte. A gente ficava dias sem dormir, sem comer.” – Carla e Juliano, casados, ex-pacientes do Hospital Santa Mônica
A relação passou a girar em torno da droga:
- todo o dinheiro era destinado ao consumo
- bens foram vendidos
- conflitos se intensificaram
- episódios de agressividade surgiram
“Quando um usava mais que o outro, a gente brigava.” – Carla e Juliano
Esse padrão é frequente em casais em dependência ativa: reforço mútuo do comportamento e escalada de risco.
A gravidez — e a tentativa de mudança
Diante do caos, Carla buscou uma saída.
Engravidar parecia, naquele momento, uma forma de interromper o ciclo.
Mas a dependência não cedeu.
Mesmo grávida, o uso continuou.
Esse é um ponto crítico: a dependência química não é interrompida apenas por motivação — exige tratamento estruturado.
A decisão que mudou tudo
O ponto de ruptura veio com Juliano.
“Eu vi que a gente não ia conseguir sair sozinho.” – Carla e Juliano
A proposta de internação gerou medo — especialmente em Carla, que já tinha experiências anteriores.
Mas também trouxe clareza.
Eles aceitaram ajuda.
A chegada ao Hospital Santa Mônica
O casal optou por um ambiente onde já havia referência de cuidado médico e abordagem estruturada.
A internação foi organizada rapidamente.
Mesmo assim, a ambivalência persistia.
“No caminho, a gente ainda queria usar.” – Carla e Juliano
Esse comportamento é esperado em quadros de dependência avançada — o desejo persiste mesmo diante da decisão racional de parar.
O início do tratamento: separação e adaptação
No hospital, Carla e Juliano foram alocados em alas diferentes — prática padrão para garantir foco terapêutico.
“A gente se via pouco, mas foi importante.” – Carla e Juliano
A separação, embora difícil, permitiu que cada um iniciasse seu próprio processo de recuperação.
Como funciona a reabilitação
Durante a internação, o casal passou por um programa estruturado, com foco em reconstrução comportamental e emocional.
A rotina incluiu:
- acompanhamento psiquiátrico
- psicoterapia
- grupos terapêuticos
- modelo dos 12 passos
- atividades ocupacionais
Foi nesse contexto que conheceram os Narcóticos Anônimos.
“Aprendemos a lidar com frustração, com nossos defeitos e com a vontade de usar.” – Carla e Juliano
O grupo funciona como rede de apoio — elemento essencial para manutenção da abstinência.
Gravidez e cuidado integral
Durante a internação, Carla realizou todo o pré-natal com acompanhamento da equipe.
Esse ponto reforça um diferencial importante: o tratamento integrado, que considera não apenas a dependência, mas o contexto clínico completo.
Com suporte médico e nutricional, ambos recuperaram saúde física e estabilidade.
A alta: o início do desafio real
A saída do hospital trouxe uma nova realidade.
Sem emprego e sem estrutura financeira, o casal enfrentou dificuldades imediatas.
Foi nesse momento que o apoio familiar fez diferença.
Para evitar recaídas, a mãe de Carla ajudou com moradia — mas com um acordo claro.
“O tratamento me ensinou que eu preciso conquistar as coisas.” – Carla e Juliano
A troca por trabalho trouxe senso de responsabilidade — um dos pilares da recuperação.
O nascimento do filho — e a prova definitiva
O nascimento de Cássio trouxe mais um desafio.
Inicialmente, o casal foi considerado inapto para cuidar do bebê — devido ao histórico de dependência.
Mas, já em recuperação e com acompanhamento, conseguiram reverter a situação.
“Tudo o que a gente queria era cuidar dele.” – Carla e Juliano
Esse momento marca uma virada simbólica: da perda de controle para a reconstrução de vínculo.
Recuperação: rotina, apoio e propósito
Hoje, Carla e Juliano seguem em recuperação, frequentando grupos de apoio e mantendo a abstinência.
Juliano voltou ao mercado de trabalho.
Carla encontrou no filho um novo eixo de vida.
“Eu vivo por ele. Sou muito grata pela vida dele.” – Carla e Juliano
A recuperação, nesse caso, não é apenas parar de usar — é reorganizar a vida em torno de novos significados.
Mensagem de quem viveu o processo
A história do casal deixa um ponto claro:
“Existe vida fora da droga — mas a gente não consegue chegar lá sozinho.” – Carla e Juliano.
| Contexto clínico — equipe do Hospital Santa Mônica |
| Programa de Dependência Química · Tratamento para Casais e Suporte Familiar “A dependência química em casais tende a se reforçar mutuamente, aumentando a complexidade do tratamento. A abordagem estruturada, com separação terapêutica inicial, acompanhamento multidisciplinar e suporte contínuo, é fundamental para interromper o ciclo e promover recuperação sustentada.” |
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*Carla, Juliano e Cássio, foram os nomes fictícios adotados para não expor os pacientes e seu filho.