Transtorno Mental Transtorno por Uso de Substância

Copa do Mundo pode aumentar o risco de compulsão por apostas esportivas?

Sim. Grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo, costumam aumentar significativamente a exposição às apostas esportivas online, conhecidas como bets. Para pessoas vulneráveis, esse cenário pode favorecer o desenvolvimento ou agravamento da compulsão por jogos, um transtorno mental capaz de gerar prejuízos financeiros, emocionais, familiares e profissionais.

Por que a Copa do Mundo preocupa especialistas em saúde mental?

Mais jogos, mais publicidade e mais oportunidades para apostar

A Copa do Mundo é um dos maiores eventos esportivos do planeta e movimenta bilhões de espectadores. Durante o torneio, ocorre uma intensificação da publicidade das plataformas de apostas, promoções de cadastro, bônus, campanhas com influenciadores e integração das bets às transmissões esportivas.

Essa combinação aumenta a frequência de apostas e pode estimular comportamentos de risco, principalmente em pessoas que já apresentam impulsividade, ansiedade, depressão ou histórico de dependência.

O problema é que muitas apostas começam como entretenimento, mas podem evoluir para uma relação de perda de controle, em que o indivíduo passa a apostar para recuperar prejuízos, aliviar emoções negativas ou buscar sensações de excitação cada vez maiores.

O que é a compulsão por apostas?

Entendendo o Transtorno do Jogo

A compulsão por apostas, também chamada de Transtorno do Jogo ou ludopatia, é uma condição reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11), caracterizada pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais ou sociais.

Os principais sinais incluem:

  • Dificuldade em parar de apostar;
  • Necessidade de apostar valores cada vez maiores;
  • Tentativas repetidas e frustradas de interromper o comportamento;
  • Pensamentos frequentes sobre apostas;
  • Continuação das apostas apesar das consequências negativas.

Assim como ocorre em outras dependências, o cérebro passa a buscar repetidamente a sensação de recompensa e expectativa associada ao jogo.

O tamanho do problema no Brasil

As apostas movimentam bilhões de reais

O crescimento das apostas esportivas no Brasil tem chamado atenção não apenas de especialistas em saúde mental, mas também de economistas e autoridades públicas.

Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda mostram que cerca de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas esportivas legalizadas no primeiro semestre de 2025. O gasto médio foi de R$ 164 por mês por apostador ativo, com predominância de homens e adultos jovens.

Além disso, o Banco Central e órgãos do governo federal já estimaram que os brasileiros movimentam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em apostas online.

O impacto financeiro sobre as famílias

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada aos gastos com bets retirou aproximadamente R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro. O valor equivale ao volume de vendas dos períodos de Natal de 2024 e 2025 somados.

Segundo a mesma análise, os gastos mensais com apostas cresceram para mais de R$ 30 bilhões e podem ter contribuído para levar cerca de 270 mil famílias à chamada inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias no pagamento de dívidas.

Embora nem todo apostador desenvolva compulsão, os dados demonstram como o avanço das bets pode impactar diretamente o orçamento doméstico e aumentar situações de sofrimento psicológico.

O papel dos influenciadores digitais na popularização das bets

A promessa de ganhos fáceis e o estilo de vida de luxo

O psicólogo Antonio Chaves reforça que “nos últimos anos, as plataformas de apostas esportivas passaram a investir fortemente em marketing digital. Além dos anúncios tradicionais, muitas empresas utilizam influenciadores digitais para promover as apostas em redes sociais como Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas.”

Frequentemente, esses conteúdos associam as bets a uma imagem de sucesso financeiro, liberdade, viagens, carros de luxo e conquistas pessoais. Para muitos seguidores, especialmente adolescentes e jovens adultos, a mensagem transmitida é a de que apostar pode ser um caminho rápido para ganhar dinheiro.

O problema é que essa narrativa raramente mostra a realidade das perdas financeiras enfrentadas pela maioria dos apostadores.

A ilusão do ganho fácil

Alerta ainda que “a exposição repetida a conteúdos que exibem ganhos, premiações e estilos de vida luxuosos pode criar uma percepção distorcida dos riscos envolvidos nas apostas.”

Quando uma pessoa vê influenciadores comemorando supostos lucros diariamente, pode desenvolver a falsa impressão de que ganhar dinheiro com apostas é algo frequente, previsível ou acessível para qualquer pessoa.

Na prática, as plataformas de apostas são estruturadas para obter lucro no longo prazo, e a maioria dos usuários não alcança os ganhos extraordinários frequentemente exibidos nas redes sociais.

Jovens são especialmente vulneráveis

O impacto pode ser ainda maior entre adolescentes e jovens adultos, grupo que passa grande parte do tempo conectado às redes sociais e que está em uma fase da vida marcada por maior impulsividade e busca por recompensas imediatas.

A combinação entre:

  • Influenciadores admirados;
  • Promessas de ganhos rápidos;
  • Emoção dos eventos esportivos;
  • Facilidade de apostar pelo celular;

cria um ambiente favorável ao desenvolvimento de comportamentos de risco.

Durante grandes eventos como a Copa do Mundo, quando a publicidade das bets se intensifica, esse efeito tende a ser potencializado.

Aposta não é investimento

Uma das principais mensagens que especialistas defendem é que apostas esportivas não devem ser confundidas com investimento financeiro.

Enquanto investimentos são baseados em planejamento, diversificação e gestão de risco, as apostas dependem de resultados incertos e envolvem possibilidade real de perdas financeiras.

Quando uma pessoa passa a enxergar as bets como solução para problemas financeiros ou como forma de enriquecer rapidamente, o risco de endividamento e compulsão aumenta significativamente.

Consumo crítico das redes sociais

Ao acompanhar conteúdos sobre apostas, é importante lembrar que as redes sociais costumam mostrar apenas os momentos de ganho, ocultando perdas, dívidas e consequências emocionais.

Por isso, especialistas recomendam que informações divulgadas por influenciadores sejam analisadas de forma crítica e que decisões financeiras nunca sejam tomadas com base em promessas de lucro fácil ou enriquecimento rápido.

Quem corre maior risco?

Fatores que aumentam a vulnerabilidade

Alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver problemas relacionados às apostas:

  • Adolescentes e jovens adultos;
  • Pessoas com ansiedade ou depressão;
  • Indivíduos com histórico de dependência química;
  • Pessoas impulsivas;
  • Quem enfrenta dificuldades financeiras;
  • Pessoas que utilizam apostas para lidar com estresse, tristeza ou frustração.

Pesquisas também mostram maior prevalência de apostas entre homens jovens, faixa etária frequentemente exposta às campanhas publicitárias do setor.

Como a Copa do Mundo pode agravar esse cenário?

O futebol desperta emoções que favorecem decisões impulsivas

Durante a Copa do Mundo, muitos fatores atuam simultaneamente:

  • Jogos acontecendo todos os dias;
  • Maior exposição à publicidade das bets;
  • Promoções e bônus temporários;
  • Pressão social para participar de bolões e apostas;
  • Sensação de conhecimento sobre futebol e probabilidade de acertos;
  • Facilidade de apostar pelo celular em poucos segundos.

Esse ambiente pode estimular apostas cada vez mais frequentes e aumentar o risco de que uma atividade recreativa evolua para um comportamento compulsivo.

Um dos mecanismos mais comuns é a tentativa de recuperar perdas financeiras por meio de novas apostas, criando um ciclo de prejuízos que pode se tornar difícil de interromper.

Quais são os sinais de alerta?

Quando a diversão deixa de ser saudável

Alguns comportamentos merecem atenção:

  • Pensar em apostas durante grande parte do dia;
  • Apostar valores maiores do que o planejado;
  • Esconder gastos de familiares;
  • Mentir sobre perdas financeiras;
  • Utilizar cartão de crédito, empréstimos ou limite bancário para apostar;
  • Negligenciar trabalho, estudos ou relacionamentos;
  • Sentir irritação, ansiedade ou angústia quando não consegue apostar;
  • Apostar para tentar recuperar perdas anteriores.

Quanto mais sinais estiverem presentes, maior a necessidade de avaliação especializada.

Quando buscar ajuda?

Procure atendimento especializado se houver:

  • Perda frequente do controle sobre as apostas;
  • Endividamento relacionado ao jogo;
  • Conflitos familiares decorrentes das bets;
  • Sintomas de ansiedade ou depressão;
  • Tentativas frustradas de parar;
  • Isolamento social;
  • Pensamentos de desesperança ou autolesão associados às perdas financeiras.

A intervenção precoce aumenta significativamente as chances de recuperação e reduz os impactos sobre a saúde mental e a vida financeira.

Como é o tratamento?

A recuperação é possível

O tratamento da compulsão por apostas pode envolver:

  • Avaliação psiquiátrica;
  • Psicoterapia especializada;
  • Terapia cognitivo-comportamental;
  • Tratamento de transtornos associados, como ansiedade e depressão;
  • Orientação familiar;
  • Estratégias de prevenção de recaídas.

Cada paciente recebe um plano terapêutico individualizado de acordo com a gravidade do quadro e suas necessidades específicas.

Pronto Atendimento Psiquiátrico 24 horas

Se você percebe que as apostas esportivas estão causando sofrimento emocional, conflitos familiares, dívidas ou perda de controle, procure ajuda especializada.

O Hospital Santa Mônica conta com Pronto Atendimento Psiquiátrico 24 horas, equipe multidisciplinar especializada e estrutura completa para avaliação, acolhimento e tratamento dos transtornos relacionados à compulsão por jogos e outras dependências comportamentais.

Buscar ajuda precocemente pode evitar o agravamento do quadro e permitir a recuperação da saúde mental, das relações familiares e da estabilidade financeira.

Quando as apostas deixam de ser diversão: a história de Rafael

“Eu perdi mais de R$ 100 mil tentando recuperar o que já tinha perdido”

Muitas pessoas acreditam que a compulsão por apostas acontece apenas com indivíduos sem informação ou sem controle financeiro. Na prática, o transtorno pode atingir qualquer pessoa.

Rafael começou apostando em eventos esportivos de forma recreativa. O que inicialmente parecia apenas uma maneira de tornar os jogos mais emocionantes foi se transformando em uma rotina diária. Com o passar do tempo, as apostas passaram a ocupar seus pensamentos, consumir grande parte da sua renda e gerar prejuízos crescentes.

A cada perda, surgia a expectativa de recuperar o dinheiro na próxima aposta. Esse mecanismo, conhecido como “perseguição das perdas”, é um dos comportamentos mais frequentes entre pessoas que desenvolvem compulsão por jogos.

Ao longo do processo, Rafael acumulou prejuízos superiores a R$ 100 mil. As consequências ultrapassaram a questão financeira, afetando sua saúde emocional, relacionamentos familiares e qualidade de vida.

“Eu acreditava que conseguiria recuperar tudo no próximo jogo. Quando percebi, já não estava apostando para ganhar, mas para tentar sair do prejuízo”, relata.

A história de Rafael ilustra uma realidade cada vez mais comum. Muitas pessoas só procuram ajuda quando as dívidas se tornam insustentáveis ou quando os impactos emocionais passam a comprometer o dia a dia.

A boa notícia é que a compulsão por apostas tem tratamento. Com acompanhamento especializado, é possível interromper o ciclo das apostas, recuperar o equilíbrio emocional e reconstruir a vida financeira e familiar.

Leia também: Como Rafael perdeu mais de R$ 100 mil em apostas online e encontrou ajuda para retomar sua vida.

Referências

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