Transtorno por Uso de Substância

Ludopatia em apostas online: a epidemia silenciosa que destrói famílias e adoece a saúde mental dos brasileiros

Especialista alerta para avanço da dependência em bets, endividamento familiar, risco de suicídio e impacto neuropsicológico das apostas digitais

Publicado em: maio de 2026
Em resumo

O Brasil vive uma explosão silenciosa da dependência em apostas online. Em 2025, mais de 25 milhões de brasileiros apostaram em plataformas regulamentadas, enquanto pesquisas da UNIFESP apontam que cerca de 11 milhões já apresentam algum grau de comportamento problemático relacionado às bets.

Por trás dos números existe uma doença real: a ludopatia, também chamada de Transtorno do Jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e frequentemente associada à depressão, ansiedade, abuso de álcool e aumento do risco de suicídio.

“A ludopatia não é falta de caráter nem ausência de força de vontade. Estamos falando de um transtorno mental que altera os mecanismos cerebrais ligados à motivação, impulsividade e busca por recompensa”, explica Antonio Chaves Filho.

Nesta reportagem, especialistas explicam como as apostas digitais atuam no cérebro, por que tantas pessoas perdem o controle e quais são os caminhos de tratamento disponíveis.

O Brasil que aposta — e o preço emocional dessa epidemia

Era domingo à noite quando Marcos, 34 anos, técnico de TI, enviou mais uma mensagem ao pai:

“Preciso de R$ 3 mil. Prometo que pago semana que vem.”

A família já havia emprestado quase R$ 20 mil em poucos meses. O que ninguém sabia era que Marcos havia desenvolvido dependência em apostas online.

A história é baseada em casos reais atendidos em serviços de saúde mental no Brasil — e se repete diariamente em milhares de famílias.

Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas regulamentadas em 2025. O setor movimenta cerca de R$ 20 bilhões por mês.

Mas o dado que mais preocupa especialistas é outro: pesquisa da UNIFESP estima que aproximadamente 11 milhões de brasileiros já apresentam sinais de uso problemático das apostas.

“Hoje vemos pacientes que perderam patrimônio, casamento, emprego e estabilidade emocional por causa das bets. Muitos chegam ao atendimento em sofrimento psíquico intenso, com ansiedade grave, depressão e desesperança”, afirma Antonio Chaves Filho.

O que é ludopatia?

A ludopatia — chamada tecnicamente de Transtorno do Jogo (Gambling Disorder) — é uma dependência comportamental reconhecida pela OMS na CID-11 e pela Associação Psiquiátrica Americana no DSM-5.

Ela ocorre quando a pessoa perde progressivamente a capacidade de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares.

“A lógica cerebral da ludopatia é muito semelhante à observada nas dependências químicas. Existe compulsão, craving, perda de controle e persistência do comportamento apesar das consequências negativas”, explica Antonio Chaves Filho.

O cérebro das apostas: o papel real da dopamina

Durante anos, a dopamina foi popularmente chamada de “molécula do prazer”. Hoje, a neurociência sabe que o papel dela é mais complexo.

As apostas ativam o sistema de recompensa cerebral, especialmente os circuitos ligados à dopamina — neurotransmissor associado principalmente à motivação, expectativa e busca por recompensa.

“A dopamina não está ligada apenas ao prazer de ganhar. Ela participa principalmente da antecipação da possível recompensa. É isso que mantém muitas pessoas presas ao ciclo das apostas”, explica Antonio Chaves Filho.

O elemento mais poderoso das bets é justamente a imprevisibilidade.

O cérebro humano responde intensamente às recompensas incertas — mecanismo conhecido como “reforço intermitente”. Como o jogador nunca sabe quando ganhará, o cérebro permanece em estado constante de expectativa.

Isso ajuda a explicar por que muitas pessoas continuam apostando mesmo após sucessivas perdas.

Além disso, situações de “quase vitória” — perder por pouco — também ativam circuitos cerebrais ligados à recompensa e aumentam a sensação subjetiva de que o prêmio está próximo.

“Com o tempo, o indivíduo deixa de buscar apenas o dinheiro. Ele passa a buscar a excitação emocional produzida pelo ato de apostar”, afirma o psicólogo.

Os sinais de alerta da dependência em apostas

Segundo o DSM-5, alguns sinais indicam possível Transtorno do Jogo:

  • preocupação constante com apostas;
  • necessidade de apostar valores cada vez maiores;
  • irritabilidade ou ansiedade ao tentar parar;
  • mentiras sobre perdas financeiras;
  • tentativas frustradas de controle;
  • uso das apostas como fuga emocional;
  • busca desesperada para recuperar perdas;
  • prejuízo profissional, familiar e social;
  • dependência financeira de terceiros.

“A pessoa geralmente acredita que conseguirá recuperar o prejuízo na próxima aposta. Esse pensamento mantém o ciclo compulsivo funcionando”, alerta Antonio Chaves Filho.

O impacto psicológico das bets

Os efeitos da ludopatia vão muito além das perdas financeiras.

Pacientes frequentemente desenvolvem:

  • depressão;
  • transtornos de ansiedade;
  • insônia;
  • isolamento social;
  • irritabilidade intensa;
  • crises familiares;
  • abuso de álcool e drogas;
  • ideação suicida.

Estudos internacionais mostram que pessoas com Transtorno do Jogo apresentam risco significativamente maior de suicídio quando comparadas à população geral.

“Muitos pacientes chegam emocionalmente devastados. Existe culpa, vergonha, sensação de fracasso e perda de esperança”, explica Antonio Chaves Filho.

Por que as plataformas são tão viciantes?

Especialistas alertam que muitas plataformas utilizam princípios de engenharia comportamental para maximizar engajamento e retenção.

Entre os mecanismos utilizados estão:

  • recompensas imprevisíveis;
  • estímulos visuais intensos;
  • sons ativadores;
  • sensação de urgência;
  • bônus frequentes;
  • notificações constantes;
  • experiências gamificadas.

“Os aplicativos são construídos para manter o usuário conectado emocionalmente ao comportamento de apostar”, afirma Antonio Chaves Filho.

Quando a internação psiquiátrica pode ser necessária?

Em quadros graves, especialmente quando há risco de suicídio, colapso financeiro severo ou associação com dependência química, a internação psiquiátrica pode ser indicada.

O Hospital Santa Mônica atua no tratamento integrado de transtornos psiquiátricos, dependência química e dependências comportamentais, incluindo ludopatia.

O tratamento pode incluir:

  • avaliação psiquiátrica especializada;
  • psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC);
  • controle de impulsividade;
  • manejo de comorbidades;
  • suporte familiar;
  • grupos terapêuticos;
  • desintoxicação, quando há uso de substâncias associado;
  • acompanhamento pós-alta.

“A recuperação é possível, mas exige tratamento estruturado e continuidade do cuidado. A recaída pode fazer parte do processo e deve ser tratada clinicamente, não moralmente”, destaca Antonio Chaves Filho.

Como a família pode ajudar?

Especialistas orientam que familiares:

  • não financiem as apostas;
  • evitem ameaças ou humilhações;
  • incentivem a busca por tratamento;
  • estabeleçam limites claros;
  • procurem apoio psicológico para si próprios.

“A família também adoece junto. Muitas vezes encontramos pais, parceiros e filhos emocionalmente exaustos”, explica Antonio Chaves Filho.

O que fazer ao perceber sinais de dependência?

Os especialistas recomendam procurar ajuda profissional quando houver:

  • perda de controle sobre apostas;
  • endividamento recorrente;
  • mentiras frequentes;
  • sofrimento emocional intenso;
  • isolamento social;
  • associação com álcool ou drogas;
  • pensamentos suicidas.

Em situações de crise emocional ou risco imediato, a orientação é procurar atendimento psiquiátrico urgente ou entrar em contato com o CVV pelo telefone 188.

Conclusão

A epidemia das apostas online se transformou em um dos maiores desafios contemporâneos de saúde mental no Brasil.

O avanço das bets expôs milhões de pessoas a mecanismos altamente estimulantes, capazes de desencadear dependência psicológica, colapso financeiro e sofrimento emocional grave.

“A ludopatia tem tratamento. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores são as chances de recuperação e reconstrução da vida emocional, familiar e financeira do paciente”, conclui Antonio Chaves Filho.

Conheça a história de recuperação do Rafael, 31 anos, compartilha sua jornada de perdas, internação voluntária e reconstrução após a dependência em bets — e como a família foi o alicerce de tudo.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). CID-11 — Gambling Disorder.
  • American Psychiatric Association. DSM-5.
  • UNIFESP. Pesquisa sobre uso problemático de apostas online no Brasil, 2025.
  • Ministério da Fazenda. Secretaria de Prêmios e Apostas, 2025.
  • Berridge KC, Robinson TE. What is the role of dopamine in reward? Brain Research Reviews.
  • Schultz W. Dopamine reward prediction error coding. Dialogues in Clinical Neuroscience.
  • Ibevar/FIA Business School. Apostas e endividamento familiar no Brasil.
  • Banco Central do Brasil. Relatório de Endividamento das Famílias Brasileiras.
gradient
Cadastre-se e receba nossa newsletter