Histórias de Recuperação

“Eu achei que não tinha salvação. Hoje eu estou viva — e vivendo de verdade”

Júlia Tereza tem 25 anos e está há 4 anos em abstinência. Sua história começa na infância, marcada por conflitos familiares e violência, evolui para o uso de drogas na adolescência, dependência de cocaína e crack, vida nas ruas e múltiplas recaídas. Hoje, celebra algo que antes parecia impossível: estar viva, sóbria e presente na própria vida.

Depoimento: Júlia Tereza, 25 anos, ex-paciente · Leitura: ~8 min

Cristina Collina
Redação
Cristina Collina

Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.

Comunicação em Saúde
RESPOSTA RÁPIDA — para quem enfrenta dependência química e recaídas
A dependência química frequentemente está associada a dores emocionais profundas e começa muito antes do uso de substâncias. Júlia iniciou o contato com drogas ainda na adolescência, evoluiu para uso intenso de cocaína e crack e chegou a viver em situação de extrema vulnerabilidade. Passou por quatro internações e recaídas até consolidar sua recuperação. Hoje, mostra que recaídas fazem parte do processo — e que a recuperação é possível com tratamento, autoconhecimento e decisão.
8 anos
início do sofrimento emocional  
4 internações
até estabilizar o tratamento
4 anos
em abstinência  

A origem: dor emocional antes da droga

A história de Júlia não começa na adolescência — começa na infância.

Cresceu em um ambiente marcado por conflitos, com episódios de violência física e psicológica dentro de casa.

A relação com a mãe era instável e, paradoxalmente, foi também uma porta de entrada indireta para a curiosidade sobre drogas.

“Ela falava da droga como algo que dava liberdade. Isso me instigava.” – Júlia, ex-paciente do Hospital Santa Mônica

Esse tipo de exposição precoce é um fator de risco importante para o desenvolvimento da dependência.

Adolescência: solidão e necessidade de pertencimento

A mudança de escola e a perda de vínculos importantes intensificaram o isolamento.

Júlia queria se conectar — mas não sabia como.

A estratégia foi prática: usar o que o grupo usava.

O cigarro foi o primeiro passo.

“Eu queria fazer parte.” -Júlia

Esse padrão — pertencimento através da substância — é recorrente em adolescentes vulneráveis.

A escalada: da cocaína ao crack

O contato com a cocaína veio em contextos sociais.

Inicialmente pontual, o uso rapidamente se intensificou:

  • de finais de semana para uso diário
  • aumento progressivo da frequência
  • perda de controle

Com o tempo, a droga deixou de gerar prazer e passou a produzir efeito contrário:

  • piora do humor
  • isolamento
  • sintomas depressivos

Foi nesse cenário que surgiu o crack.

“Eu vi e pensei: eu quero.” – Júlia

A transição para o crack marca um ponto crítico na evolução da dependência.

O fundo do poço: rua, degradação e perda de si

A dependência atingiu um nível extremo.

Júlia passou a usar na rua, rompeu vínculos e entrou em um ciclo de autodestruição:

  • ausência de alimentação
  • negligência total com o corpo
  • uso contínuo
  • tentativa indireta de morte pelo uso excessivo

“Eu só queria usar o suficiente pra morrer.”

Esse estágio representa risco elevado de morte — física e psíquica.

O momento de ruptura: pedir ajuda

Em meio ao colapso, surgiu um momento de lucidez.

Júlia decidiu procurar o pai.

“Pai, me interna agora.” – Júlia

Esse pedido é um dos pontos mais críticos e valiosos no processo de recuperação: quando o próprio paciente reconhece a necessidade de ajuda.

A primeira internação: cuidado e estabilização

O primeiro contato com o tratamento trouxe algo que ela não vivenciava há muito tempo: cuidado básico.

  • alimentação regular
  • rotina estruturada
  • ambiente protegido

“Parecia um conto de fadas.” – Júlia

O corpo respondeu rapidamente — ganhou peso, estabilizou fisicamente.

Mas o desafio maior viria depois.

O choque da realidade e as recaídas

Após a alta, veio o impacto do mundo real.

Responsabilidades, cobranças e ausência de suporte estruturado favoreceram a recaída.

Júlia passou por quatro internações.

“Eu não encontrava onde me segurar.” – Júlia

Esse é um ponto essencial: recaída não é fracasso — é parte do processo em muitos casos.

A virada interna: decisão e identidade

A mudança definitiva não veio apenas do ambiente — veio de dentro.

Júlia começou a questionar o vazio que tentava preencher com a droga.

“Eu tenho que ser alguém.” – Júlia

Essa construção de identidade é um marco na recuperação.

A partir desse momento, interrompeu o uso.

A vida depois da dependência: redescobrir o básico

Hoje, Júlia valoriza experiências simples — que antes eram impossíveis:

  • sentir emoções sem substâncias
  • respirar, correr, se movimentar
  • se conectar com pessoas
  • estar presente

“O maior presente é saber que eu tô viva.” – Júlia

Mais do que existir, ela vive.

O medo que permanece — e protege

Mesmo após anos de abstinência, Júlia reconhece o risco.

“Dá medo. Porque é uma droga muito difícil de sair.” – Júlia

Esse medo, quando elaborado, funciona como fator de proteção contra recaídas.

A mensagem de quem sobreviveu

Júlia deixa um recado direto, quase urgente:

  • se você pensou em se internar, você precisa
  • não espere piorar
  • peça ajuda

“Eu achei que não tinha salvação. E tenho.”

Contexto clínico — equipe do Hospital Santa Mônica
Programa de Dependência Química · Suporte Familiar Dependência Química · Recaídas · Vulnerabilidade Psicossocial
“A dependência química frequentemente está associada a experiências precoces de trauma, negligência ou conflito familiar. O uso de substâncias surge, muitas vezes, como tentativa de regulação emocional. Substâncias como cocaína e crack apresentam alto potencial de dependência, com rápida progressão e elevado risco social e clínico. O processo de recuperação pode envolver recaídas, especialmente quando o paciente retorna a ambientes sem suporte estruturado. A consolidação da abstinência depende de múltiplos fatores: tratamento especializado, rede de apoio, reconstrução de identidade e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento.”  
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