Saúde Mental nas Férias: Pensando em proporcionar bem-estar para sua família ou para um amigo querido, o Hospital Santa Mônica oferece Programa de Cuidado Intensivo. Saiba mais

Infantojuvenil Transtorno por Uso de Substância

Zuckerberg depõe nos EUA. O tema? Vício em redes sociais.

O CEO da Meta está no centro de um julgamento histórico.
A acusação: plataformas como Instagram foram desenhadas para estimular uso compulsivo entre adolescentes.

O depoimento de Mark Zuckerberg no julgamento nos Estados Unidos reacende um debate que já ultrapassa o campo tecnológico: o uso compulsivo de celulares e redes sociais pode configurar um padrão de dependência comportamental com repercussões clínicas reais.

Embora “vício em smartphone” ainda não esteja formalmente codificado como diagnóstico no DSM-5 ou CID-11, a literatura científica documenta padrões de perda de controle, sofrimento psíquico e prejuízo funcional associados ao uso excessivo de dispositivos móveis.

Para a psiquiatria, compreender os mecanismos neurobiológicos e clínicos por trás desse fenômeno é fundamental para identificar quando o padrão de uso ultrapassa o limite entre hábito, dependência comportamental e quadro que exige intervenção intensiva. Saiba mais nesta matéria que contou com a colaboração do psicólogo do Hospital Santa Mônica, Antonio Chaves Filho.

O que a ciência diz sobre dependência de celulares e uso compulsivo

Termos e classificação

Pesquisadores usam termos como “dependência digital”, “uso problemático de smartphone” ou “nomofobia” (medo irracional de ficar sem o celular) para descrever comportamentos que lembram dependência comportamental — ainda que não tenham diagnóstico formal no CID-11.

O uso problemático está associado a prejuízo funcional (sono, atenção, humor) e a padrões de ansiedade ligados à checagem contínua de notificações e interação online, especialmente em adolescentes.

Neurobiologia do comportamento compulsivo digital

O uso intenso de smartphones ativa circuitos de recompensa no cérebro — particularmente o sistema dopaminérgico — semelhante ao observado em outras dependências comportamentais.

Estímulos intermitentes (notificações, likes, vídeos curtos) funcionam como reforçadores variáveis que mantêm o engajamento.

Estudos sugerem que comportamentos compensatórios podem:

  • Reduzir volume de massa cinzenta em áreas ligadas ao controle de impulsos e regulação emocional.
  • Alterar padrões de atividade em regiões associadas ao monitoramento de erro e tomada de decisão.
  • Reforçar respostas automáticas de busca por recompensa.

Esses efeitos, embora ainda objeto de pesquisa, mostram paralelos fisiológicos com dependências comportamentais como jogos ou consumo problemático de substâncias.

Evidências epidemiológicas em jovens

Uma análise publicada no JAMA mostrou que adolescentes com padrão de uso compulsivo de telas tinham maior risco de piora em indicadores de saúde mental, incluindo ideação suicida, em comparação com colegas com uso mais adaptativo — independentemente do tempo total de tela.

Esse achado reforça que não é apenas “quanto tempo” se passa no smartphone, mas sim a natureza compulsiva do uso que se relaciona com desfechos adversos.

Outro estudo brasileiro com universitários encontrou associação significativa entre dependência de smartphone, ansiedade, depressão, estresse e insatisfação corporal.

Do documentário ao consultório: o papel de “The Social Dilemma”

O docudrama The Social Dilemma (Netflix, 2020) apresenta entrevistas com ex-funcionários de tecnologia que explicam como o design algorítmico das redes sociais maximiza engajamento de forma semelhante a máquinas de apostas, moldando comportamentos e emoções.

Embora seja um produto audiovisual e não um estudo científico, o filme oferece uma narrativa útil para clínicos: ele evidencia como o design persuasivo pode:

  • Explorar vulnerabilidades psicológicas.
  • Promover ciclos de reforço compulsivo.
  • Contribuir para ansiedade, distorção da autoimagem e piora de humor.

Para psiquiatras, documentários como esse ajudam a contextualizar como fatores ambientais e digitais interagem com vulnerabilidades biopsicossociais.

Uso compulsivo de celular e desenvolvimento cerebral

Especialistas alertam que os impactos do uso intensivo de telas, principalmente em cérebros em desenvolvimento, podem incluir:

  • Perturbações do sono.
  • Diminuição de atenção e regulação emocional.
  • Aumento de ansiedade e sintomas depressivos.
  • Piora da interação social presencial. (Medicina UFMG)

A Faculdade de Medicina – UFMG, por exemplo, documentou prevalência elevada de sintomas de estresse e depressão associados ao uso excessivo de telas entre várias faixas etárias por meio do documento “Uso excessivo de telas está associado à saúde mental de diferentes gerações”.

Vício digital versus dependência clínica: nuances diagnósticas

É importante reforçar que:

  • O uso excessivo por si só não indica dependência clínica.
  • Sintomas de compulsão, perda de controle, prejuízo funcional e sofrimento emocional são os elementos que aproximam o quadro de um padrão que merece avaliação mais profunda.
  • estudos que sugerem que menos de 2% dos adultos atendem critérios rigorosos para um quadro de dependência verdadeira em redes sociais, destacando a diferença entre hábito e patologia.

Para pacientes com sofrimento significativo, a avaliação psiquiátrica deve considerar fatores psicossociais, comorbidades e funcionalidade — não apenas contagem de horas de uso.

Abordagens clínicas: além do “tempo de tela”

Avaliação diagnóstica

Psiquiatras podem se apoiar em instrumentos validados para uso problemático de tecnologia, considerando:

  • Critérios de perda de controle.
  • Interferência no funcionamento cotidiano.
  • Presença de sintomas de abstinência psicológica.
  • Relação com humor, sono e ansiedade.

O foco é na experiência subjetiva e impacto funcional, não apenas no relógio.

Estratégias terapêuticas

Embora a pesquisa em intervenções esteja em desenvolvimento, abordagens que mostram potencial incluem:

  • Psicoeducação sobre mecanismos de reforço.
  • Terapia cognitivo-comportamental focada em regulação de impulsos e identificação de gatilhos.
  • Experiências de “desintoxicação digital” estruturada.
  • Abordagem familiar quando adolescentes estão em contexto clínico.

Tecnologias emergentes (como modelos baseados em aprendizado de máquina que detectam padrões de uso e propõem intervenções personalizadas) estão sendo estudadas, embora ainda não sejam rotina clínica.

Cuidado integrado na clínica hospitalar

No contexto de internação psiquiátrica, o uso compulsivo de celular pode aparecer associado a:

  • Depressão maior com ruminância digital.
  • Ansiedade severa exacerbada por notificações e comparação social.
  • Comorbidades com uso de substâncias psicoativas.
  • Distúrbios do sono profundo.

A hospitalização é reservada para casos com risco iminente, prejuízo funcional acentuado ou quando o uso compulsivo está diretamente associado a comportamentos autodestrutivos.

Como o Hospital Santa Mônica pode atuar nos casos de dependência química e uso compulsivo digital

O debate sobre uso compulsivo de celular e redes sociais não pode ser dissociado do campo maior dos transtornos aditivos. Na prática clínica, quadros de uso problemático frequentemente coexistem com transtorno por uso de substâncias, depressão maior, transtornos de ansiedade ou transtorno bipolar.

No Hospital Santa Mônica, a abordagem é estruturada em dois níveis assistenciais: ambulatório especializado e internação psiquiátrica, sempre com indicação médica formal.

Atendimento ambulatorial: primeira linha para a maioria dos casos

Na maior parte das situações, o manejo é realizado em regime ambulatorial. O foco é identificar:

  • Se há dependência comportamental estruturada ou apenas uso excessivo
  • Presença de comorbidades psiquiátricas
  • Grau de prejuízo funcional
  • Impacto familiar e social

A estratégia inclui:

  • Avaliação psiquiátrica diagnóstica
  • Psicoterapia estruturada (frequentemente com abordagem cognitivo-comportamental)
  • Manejo medicamentoso quando há transtornos associados
  • Psicoeducação familiar
  • Plano individualizado de reorganização de hábitos digitais

O objetivo não é “proibir tecnologia”, mas restaurar controle, autonomia e funcionalidade.

Quando a internação psiquiátrica é indicada

A internação não é indicada para “uso excessivo de celular” isoladamente. Trata-se de um recurso terapêutico reservado para casos graves, sempre com avaliação e indicação médica psiquiátrica.

Entre os critérios clínicos que podem justificar internação:

  • Risco de autoagressão ou ideação suicida associada
  • Episódios depressivos graves
  • Desorganização comportamental significativa
  • Sintomas psicóticos
  • Transtorno por uso de substâncias com risco clínico
  • Falha terapêutica ambulatorial repetida

Nesses cenários, o ambiente hospitalar permite:

  • Monitoramento 24 horas
  • Estabilização medicamentosa segura
  • Avaliação diagnóstica aprofundada
  • Intervenção multiprofissional estruturada
  • Redução de estímulos externos que perpetuam o padrão compulsivo

Internação para transtorno por uso de substâncias

Quando há dependência química associada — álcool, cannabis, cocaína, benzodiazepínicos ou outras substâncias — a internação pode ser necessária para:

  • Desintoxicação supervisionada
  • Prevenção e manejo de síndrome de abstinência
  • Avaliação de comorbidades psiquiátricas
  • Reorganização terapêutica estruturada

A dependência digital, nesses casos, frequentemente atua como gatilho ou reforçador comportamental associado ao uso de substâncias.

Integração entre ambulatório, hospital dia e continuidade pós-alta

A alta hospitalar é planejada desde o início da internação. O modelo assistencial prevê:

  • Encaminhamento estruturado para seguimento ambulatorial ou no hospital dia
  • Ajuste medicamentoso contínuo
  • Psicoterapia de manutenção
  • Intervenção familiar
  • Estratégias de prevenção de recaída

A continuidade do cuidado é elemento central para evitar reinternações e ampliar adesão.

Posicionamento clínico

O Hospital Santa Mônica não trata o uso compulsivo digital como fenômeno isolado ou moral. Ele é compreendido dentro do espectro dos transtornos aditivos e das comorbidades psiquiátricas, sempre com avaliação técnica individualizada.

Internação não é medida disciplinar.
É recurso terapêutico indicado em situações de risco ou gravidade clínica.

FAQ — Perguntas frequentes

Pergunta: “Vício em celular é oficialmente um diagnóstico?”
Resposta: Atualmente não há categoria formal no CID-11 para “dependência digital”, mas padrões de uso compulsivo e seus impactos estão bem descritos na literatura.

Pergunta: “Qual é a diferença entre hábito e dependência digital?”
Resposta: Hábito é uso repetitivo sem prejuízo funcional claro; dependência envolve perda de controle, sofrimento e prejuízo nas áreas social, ocupacional ou acadêmica.

Pergunta: “O que a pesquisa do JAMA mostrou sobre adolescentes e telas?”
Resposta: Padrões de uso compulsivo em adolescentes foram associados a maior risco de problemas de saúde mental, incluindo ideação suicida.

Pergunta: “Cérebro muda com uso excessivo de smartphone?”
Resposta: Estudos sugerem alterações em circuitos de controle de impulsos e recompensa, com possível redução de massa cinzenta em áreas relevantes.

Pergunta: “Documentários como The Social Dilemma são úteis clinicamente?”
Resposta: São úteis para contextualizar fatores ambientais que moldam padrões de uso, mas não substituem evidências clínicas.

Pergunta: “Limitar tempo de tela é suficiente?”
Resposta: Não; estratégias eficazes consideram função psicológica e gatilhos de uso além do relógio.

Pergunta: “Adolescentes são mais vulneráveis?”
Resposta: Sim; o cérebro em desenvolvimento é mais sensível a circuitos de recompensa e comparação social.

Pergunta: “Internação é indicada apenas por dependência digital?”
Resposta: Não; é considerada quando o uso compulsivo se associa a risco de danos graves ou comorbidades clínicas que oferecem risco imediato.

REFERÊNCIAS (ABNT)

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

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