Resposta rápida: Sim. Embora as drogas ilícitas despertem grande preocupação, o álcool continua sendo a substância psicoativa que mais causa adoecimento, mortes, acidentes, violência e impactos sociais no Brasil. A Semana Nacional de Combate às Drogas reforça que prevenção, diagnóstico precoce, tratamento especializado e reinserção social são fundamentais para enfrentar a dependência química como um problema de saúde pública, e não como uma falha de caráter.
Semana Nacional de Combate às Drogas: por que a conscientização continua sendo tão importante?
Celebrada anualmente na última semana de junho, a Semana Nacional de Combate às Drogas busca ampliar o debate sobre prevenção, reduzir o preconceito contra pessoas com transtorno por uso de substâncias e estimular políticas públicas voltadas ao cuidado.
Apesar da maior visibilidade do tema, especialistas alertam que ainda existe um grande desafio: muitas pessoas procuram ajuda apenas quando a dependência já compromete a saúde física, mental, os relacionamentos familiares e a vida profissional.
Mais do que discutir drogas ilícitas, os dados mostram que o maior problema brasileiro continua sendo uma substância legalizada e socialmente aceita: o álcool.
O álcool é a droga que mais causa problemas de saúde no Brasil
Os números do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostram a dimensão do problema.
Segundo o estudo:
- aproximadamente 73,9 milhões de brasileiros, ou 42,5% da população com 14 anos ou mais, consumiram bebidas alcoólicas;
- cerca de 19,9 milhões apresentam critérios compatíveis com transtorno por uso de álcool ou consumo considerado problemático;
- o álcool permanece como o principal fator de risco relacionado à mortalidade e à morbidade entre todas as substâncias psicoativas utilizadas no país.
Embora muitas vezes seja encarado como parte da rotina social, o álcool está associado a centenas de doenças, acidentes, violência, afastamentos do trabalho e sobrecarga do sistema de saúde.
Não são apenas os usuários que sofrem as consequências
O impacto da dependência química vai muito além da pessoa que consome a substância.
O uso abusivo de álcool e outras drogas está relacionado ao aumento de:
- acidentes de trânsito;
- violência doméstica;
- agressões físicas;
- homicídios;
- negligência familiar;
- perda de produtividade;
- afastamentos do trabalho;
- custos elevados para os serviços de saúde e assistência social.
Especialistas em saúde pública destacam que o álcool representa uma enorme carga social justamente por ser barato, facilmente disponível e culturalmente aceito.
O consumo de drogas ilícitas também preocupa
Embora o álcool seja responsável pelo maior impacto coletivo, as drogas ilícitas continuam sendo um importante desafio para a saúde pública.
Dados do LENAD III indicam que:
- 18,7% dos brasileiros já utilizaram alguma droga ilícita pelo menos uma vez na vida;
- entre os homens, esse percentual chega a 23,9%;
- entre as mulheres, 13,9%.
Nos últimos anos, especialistas também observam mudanças no perfil das substâncias utilizadas, incluindo maior disponibilidade de drogas sintéticas e o crescimento do consumo associado a transtornos psiquiátricos.
Quais drogas são mais comuns entre pacientes em tratamento?
Segundo Antonio Chaves Filho, psicólogo especialista em dependência química do Hospital Santa Mônica, o perfil dos pacientes acompanhados atualmente acompanha a realidade observada em todo o país.
“O álcool continua sendo a principal substância relacionada às internações e aos tratamentos, justamente porque é amplamente disponível e socialmente aceito. Também observamos muitos casos envolvendo cocaína, crack, maconha e, mais recentemente, aumento do uso combinado de múltiplas substâncias.”
O especialista explica que o consumo simultâneo de álcool com outras drogas tornou-se cada vez mais frequente, tornando o tratamento mais complexo.
Dependência química não é falta de força de vontade
Um dos maiores obstáculos para quem busca ajuda continua sendo o preconceito.
Durante muitos anos, a dependência foi interpretada como falta de caráter, ausência de disciplina ou simples escolha individual.
Hoje, a ciência mostra que essa visão está equivocada.
O Transtorno por Uso de Substâncias é reconhecido internacionalmente como uma doença crônica, caracterizada por alterações no funcionamento cerebral, especialmente em áreas relacionadas ao prazer, à motivação, ao autocontrole e à tomada de decisões.
Isso explica por que muitas pessoas continuam utilizando drogas mesmo conhecendo seus prejuízos.
Assim como ocorre em outras doenças crônicas, o tratamento exige acompanhamento contínuo e pode incluir diferentes estratégias terapêuticas.
O preconceito dificulta o tratamento
Segundo Antonio Chaves Filho, o estigma ainda faz muitas pessoas demorarem anos para procurar ajuda.
“Muitos pacientes chegam ao tratamento acreditando que fracassaram como pessoas. Esse sentimento de culpa aumenta o sofrimento emocional e frequentemente atrasa o início do cuidado.”
O preconceito também afeta a reinserção social.
Pessoas em recuperação frequentemente enfrentam dificuldades para:
- retornar ao mercado de trabalho;
- reconstruir vínculos familiares;
- retomar estudos;
- recuperar a autoestima;
- estabelecer novas relações sociais.
Por isso, especialistas defendem que combater o estigma faz parte do próprio tratamento.
A família tem papel decisivo na recuperação
A recuperação não depende apenas da interrupção do consumo.
Ela envolve mudanças profundas na rotina, nos relacionamentos e no estilo de vida.
Segundo Antonio Chaves Filho, o apoio familiar costuma ser um dos fatores que mais favorecem a manutenção da abstinência.
“A família precisa compreender que o tratamento continua após a alta hospitalar. O acompanhamento psicológico, o seguimento com psiquiatra, a participação em grupos terapêuticos, a retomada das atividades físicas e a reconstrução dos vínculos sociais fazem parte desse processo.”
Quando familiares também recebem orientação, torna-se mais fácil reconhecer sinais de recaída, estabelecer limites saudáveis e oferecer apoio sem reforçar comportamentos que favoreçam o uso de drogas.
O pós-tratamento é uma das fases mais importantes
Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos pacientes ocorre justamente após a alta.
Antonio Chaves Filho resume esse momento como um período crítico da recuperação.
“Existe um grande abismo entre o tratamento hospitalar e o retorno à sociedade. É justamente nesse espaço que o pós-tratamento faz toda a diferença.”
Essa fase costuma incluir:
- psicoterapia;
- consultas psiquiátricas;
- grupos de apoio;
- atividades físicas;
- fortalecimento dos vínculos familiares;
- retomada gradual do trabalho e dos estudos;
- desenvolvimento de novos projetos de vida.
O objetivo não é apenas interromper o consumo, mas reconstruir uma rotina saudável e reduzir o risco de recaídas.
O que a sociedade ainda precisa mudar?
Para especialistas, o enfrentamento da dependência química exige uma abordagem integrada.
Isso significa ampliar investimentos em diferentes áreas:
- prevenção desde a infância e adolescência;
- educação sobre álcool e outras drogas;
- fortalecimento da atenção básica;
- acesso facilitado ao tratamento especializado;
- expansão da saúde mental;
- programas de reinserção social;
- qualificação profissional;
- combate ao preconceito.
Também é fundamental que o tema seja tratado como uma questão permanente de saúde pública, baseada em evidências científicas.
Quando procurar ajuda?
Nem toda pessoa que consome álcool ou outras drogas desenvolve dependência, mas alguns sinais indicam que é hora de buscar avaliação especializada.
Entre eles estão:
- dificuldade para controlar o consumo;
- aumento progressivo da quantidade utilizada;
- sintomas de abstinência;
- prejuízos familiares ou profissionais;
- isolamento social;
- abandono de responsabilidades;
- uso mesmo diante de consequências negativas;
- tentativas frustradas de parar.
Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores costumam ser as chances de recuperação.
Dependência química tem tratamento
A dependência química é uma doença tratável.
Com acompanhamento multiprofissional, apoio familiar e continuidade do cuidado após a alta, muitas pessoas conseguem recuperar sua qualidade de vida, reconstruir vínculos e retomar seus projetos pessoais e profissionais.
A Semana Nacional de Combate às Drogas reforça justamente essa mensagem: prevenir continua sendo essencial, mas oferecer acolhimento, reduzir o preconceito e ampliar o acesso ao tratamento também são medidas fundamentais para transformar vidas.
Perguntas frequentes (FAQ)
O álcool continua sendo a substância psicoativa mais consumida pelos brasileiros e também a que provoca maior impacto na saúde pública.
Sim. O Transtorno por Uso de Substâncias é reconhecido pela medicina como uma doença crônica que altera o funcionamento cerebral e exige tratamento especializado.
Não. O pós-tratamento é uma etapa fundamental e geralmente inclui acompanhamento psicológico, psiquiátrico, grupos de apoio e fortalecimento da reinserção social.
Sim. O apoio familiar aumenta as chances de recuperação e ajuda a reduzir o risco de recaídas.
Sim. Com tratamento adequado, acompanhamento contínuo e suporte social, muitas pessoas conseguem recuperar sua saúde e qualidade de vida.
Referências
- Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III).
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Global Status Report on Alcohol and Health.
- Ministério da Saúde. Política Nacional sobre Drogas e Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes sobre Transtorno por Uso de Substâncias.
- Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). Manejo da dependência de álcool e outras drogas.