Saúde Mental nas Corporações

Quando encaminhar um colaborador para tratamento psiquiátrico

O papel estratégico do RH e dos líderes na saúde mental corporativa

Sinais de alerta, critérios técnicos e como funciona a internação psiquiátrica no Hospital Santa Mônica para casos de transtornos mentais e uso de substâncias.

Médica convidada
Dra. Luciana Mancini Bari
Revisão Clínica
Dra. Luciana Mancini Bari

Médica com foco em saúde mental, parceira do Programa Saúde Mental nas Corporações.

CRM 180901

A saúde mental já é uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil e no mundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), depressão e ansiedade geram perda anual estimada de US$ 1 trilhão em produtividade global (OMS, 2023).

Para o RH, a pergunta não é mais “se” o tema impacta a empresa, mas “quando” e “como” intervir com responsabilidade. Em casos mais graves, a internação psiquiátrica pode ser necessária — e entender esse processo é fundamental para proteger o colaborador e a organização.

Saiba mais com a Dra. Luciana Mancini Bari, médica com foco em saúde mental, parceira do Programa Saúde Mental nas Corporações e boa leitura!

Saúde mental no trabalho: quando o sinal deixa de ser amarelo

Oscilações emocionais fazem parte da vida. Mas alguns quadros ultrapassam o limite do sofrimento esperado e passam a comprometer segurança, desempenho e funcionalidade.

De acordo com o Ministério da Previdência Social, transtornos mentais estão entre as principais causas de incapacidade no país:

Em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, o maior número da série histórica recente, com transtornos de ansiedade e episódios depressivos liderando os motivos de incapacidade no trabalho.

 Em 2025, o número subiu para cerca de 546.000 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, representando um aumento de 15 % em relação ao ano anterior — consolidando esses diagnósticos entre as principais causas de incapacidade laboral no Brasil.

Entre os quadros mais prevalentes no ambiente corporativo estão:

  • Transtorno depressivo maior
  • Transtornos de ansiedade
  • Transtorno bipolar
  • Síndromes relacionadas ao uso de álcool e outras drogas
  • Episódios psicóticos

Os líderes e profissionais de RH devem observar três eixos: intensidade, duração e impacto funcional.

Quando encaminhar para avaliação psiquiátrica

Nem todo sofrimento exige internação. Mas alguns sinais indicam necessidade de avaliação especializada imediata:

1. Risco à própria vida

  • Ideação suicida verbalizada ou sugerida
  • Tentativas prévias recentes
  • Automutilação

Segundo a OMS (2025), mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo.

2. Risco a terceiros

  • Agressividade fora do padrão
  • Ameaças consistentes
  • Perda de controle comportamental

3. Perda de contato com a realidade

  • Delírios
  • Alucinações
  • Desorganização grave do pensamento

4. Comprometimento severo por uso de substâncias

  • Intoxicação recorrente no ambiente de trabalho
  • Síndrome de abstinência
  • Recaídas frequentes com prejuízo funcional

5. Incapacidade de autocuidado

  • Negligência grave com higiene
  • Alimentação inadequada persistente
  • Desorientação

Nesses cenários, a internação pode ser indicada como medida terapêutica temporária.

Internação psiquiátrica: o que realmente significa

Internação não é punição nem exclusão social. É um recurso clínico indicado quando o tratamento ambulatorial não é suficiente para garantir segurança e estabilização.

No Hospital Santa Mônica, o processo envolve:

  • Avaliação psiquiátrica criteriosa
  • Definição diagnóstica
  • Estabilização medicamentosa
  • Psicoterapia estruturada
  • Envolvimento familiar
  • Plano terapêutico individual (PTI)

A duração varia conforme o quadro clínico. Em episódios agudos, pode durar dias a algumas semanas. Em casos relacionados ao transtorno por uso de substâncias, pode envolver protocolos estruturados de desintoxicação e reabilitação.

Tipos de internação previstos em lei

A legislação brasileira (Lei nº 10.216/2001) prevê três modalidades:

  • Voluntária: com consentimento do paciente
  • Involuntária: sem consentimento, mediante indicação médica
  • Compulsória: determinada pela Justiça

O RH não determina internação. O papel da empresa é orientar, acolher e encaminhar para avaliação especializada.

Exemplo prático

Imagine um gestor que percebe que um colaborador, antes produtivo, passa a apresentar isolamento, atrasos frequentes, discurso pessimista constante e faltas injustificadas. Após conversa reservada, ele relata insônia severa, desesperança e pensamentos de “não querer mais viver”.

Nesse caso, o encaminhamento imediato para avaliação psiquiátrica é prudente. Se confirmado risco iminente, a internação pode ser indicada para proteção e estabilização.

Outro exemplo comum envolve uso abusivo de álcool com episódios de intoxicação no expediente. Se houver perda de controle e prejuízo funcional significativo, o tratamento estruturado em regime de internação pode ser a alternativa mais segura.

O papel estratégico do RH

O RH não substitui o médico. Mas pode:

  • Criar canais seguros de escuta
  • Capacitar lideranças para identificar sinais precoces
  • Estabelecer fluxos claros de encaminhamento
  • Garantir confidencialidade
  • Articular com família quando necessário
  • Planejar retorno ao trabalho após alta

Empresas que investem em saúde mental apresentam redução de absenteísmo e presenteísmo, além de melhora no clima organizacional.

Como funciona o retorno ao trabalho

Após alta hospitalar, o retorno deve ser planejado. Isso pode incluir:

  • Jornada reduzida temporária
  • Ajustes de função
  • Acompanhamento ambulatorial
  • Avaliação ocupacional

O objetivo é evitar recaídas e promover reintegração sustentável.

Em caso de dúvida, não decida sozinho

Encaminhar um colaborador para avaliação psiquiátrica é uma decisão sensível, que envolve aspectos clínicos, legais e humanos. O RH não precisa — e não deve — assumir esse processo isoladamente.

Em situações de dúvida sobre gravidade, tipo de encaminhamento ou necessidade de avaliação, o Hospital Santa Mônica conta com uma Central de Relacionamento Empresa, preparada para orientar gestores e profissionais de Recursos Humanos sobre como proceder diante de diferentes cenários.

A equipe oferece apoio técnico para:

  • Avaliação inicial da situação
  • Orientação sobre fluxos adequados de encaminhamento
  • Esclarecimento sobre modalidades de internação
  • Informações sobre prazos, documentação e acompanhamento
  • Planejamento de retorno ao trabalho

O objetivo é oferecer suporte especializado, garantindo segurança jurídica, ética e clínica — sempre com respeito à confidencialidade e à dignidade do colaborador.

Cuidar da saúde mental no ambiente corporativo é uma responsabilidade compartilhada. E ter apoio técnico faz toda a diferença na hora de agir com precisão e humanidade.

FAQ – DÚVIDAS SOBRE QUANDO ENCAMINHAR UM COLABORADOR PARA TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO

Internação psiquiátrica é comum?

Sim. É indicada apenas em casos moderados a graves, quando há risco ou falha do tratamento ambulatorial.

O RH pode obrigar um colaborador a se internar?

Não. A decisão é médica e segue a Lei 10.216/2001.

Transtornos mentais são causa frequente de afastamento?

Sim. Estão entre as principais causas de incapacidade laboral no Brasil.

Uso de álcool pode justificar internação?

Depende. Em casos de dependência grave com risco ou falha terapêutica, sim.

Quanto tempo dura uma internação?

Depende da gravidade e resposta clínica; pode variar de dias a semanas.

A internação é sempre involuntária?

Não. A maioria ocorre de forma voluntária.

A empresa pode acompanhar o tratamento?

Apenas com autorização do paciente, respeitando sigilo médico.

O colaborador pode ser demitido durante o tratamento?

A empresa deve observar legislação trabalhista e princípios de não discriminação.

O tratamento hospitalar inclui terapia?

Sim. Inclui abordagem medicamentosa e psicoterapia estruturada.

Internação resolve definitivamente o problema?

É etapa de estabilização. O acompanhamento continua após a alta.

FONTES

Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mental Disorders – Fact Sheet. Atualizado em 8 de junho de 2023.
Informa prevalência global, impacto econômico (US$ 1 trilhão/ano por depressão e ansiedade) e dados sobre suicídio (mais de 700 mil mortes/ano).
Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-disorders

Organização Mundial da Saúde (OMS).
Suicide – Fact Sheet. Atualizado em 28 de agosto de 2023.
Apresenta dados globais sobre mortalidade por suicídio e fatores de risco.
Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide

Ministério da Saúde.
Saúde Mental. Atualizado em 2022.
Panorama da política nacional de saúde mental e dados sobre afastamentos e prevalência.
Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-mental

Presidência da República.
Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001.
Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm

Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Mental health at work: Policy brief. 2022.
Aponta impacto da saúde mental na produtividade e recomendações para empregadores.
Disponível em: https://www.ilo.org

Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Boletins estatísticos da Previdência Social. Últimas atualizações disponíveis.
Dados sobre afastamentos por transtornos mentais e comportamentais (CID F).
Disponível em: https://www.gov.br/inss

gradient
Cadastre-se e receba nossa newsletter