Uso excessivo de telas, exposição a conteúdos inadequados e sinais de dependência digital acendem alerta entre especialistas — entenda quando é hora de buscar ajuda.
Cristina Collina
Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.
Comunicação em SaúdeCelular na mão, fone no ouvido e horas seguidas em plataformas digitais. Para muitos jovens, esse é o cenário diário — e o Roblox se tornou um dos ambientes mais frequentados.
Embora o jogo seja popular e estimule criatividade e interação, especialistas alertam: o uso excessivo e sem supervisão pode impactar o sono, o desempenho escolar, o humor e até a saúde mental.
Pais e responsáveis precisam entender onde está o limite entre entretenimento saudável e risco psicológico.
O que é o Roblox e por que ele preocupa?
O Roblox é uma plataforma global de jogos online criada em 2006, que permite aos usuários desenvolverem seus próprios jogos e interagirem em ambientes virtuais. Hoje, reúne dezenas de milhões de jogadores ativos diariamente, muitos deles crianças e adolescentes.
O modelo da plataforma combina:
- Jogos imersivos
- Interação social por chat
- Compras internas (moeda virtual)
- Sistema de recompensas
O problema não está no jogo em si, mas no uso prolongado, na ausência de supervisão e na exposição a ambientes que nem sempre são adequados à faixa etária.
O excesso de telas: o que dizem os dados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças e adolescentes tenham tempo de tela equilibrado e supervisionado, especialmente fora das atividades escolares.
A OMS não estabelece um número fixo de horas para adolescentes, mas faz orientações claras por faixa etária:
👶 Crianças menores de 1 ano
Não devem ser expostas a telas.
👶 1 a 2 anos
Tempo sedentário em frente a telas não é recomendado (especialmente antes dos 2 anos).
👧 2 a 4 anos
Máximo de 1 hora por dia, quanto menos melhor.
🧑🎓 5 a 17 anos
Estudos recentes apontam que adolescentes podem passar mais de 7 horas por dia em frente a telas — excluindo o tempo de aula. O impacto inclui:
- Alteração do ciclo do sono
- Maior risco de ansiedade e depressão
- Irritabilidade e isolamento social (impacto no humor)
- Queda no rendimento escolar
O Ministério da Saúde por meio do Guia sobre o uso de dispositivos digitais por crianças e adolescentes também alerta para os efeitos do comportamento sedentário e da exposição excessiva à tecnologia na infância e adolescência.
Quando o jogo vira problema?
Nem todo jovem que joga está em risco. O sinal de alerta surge quando aparecem comportamentos como:
🔹 Perda de controle
A criança não consegue parar de jogar, mesmo após combinado.
🔹 Abstinência emocional
Irritabilidade intensa quando o acesso é retirado.
🔹 Prejuízo funcional
Notas caem, sono é prejudicado, alimentação irregular.
🔹 Isolamento progressivo
Redução de contato com amigos presenciais e familiares.
Em 2019, a OMS incluiu o “Transtorno de Jogo” (Gaming Disorder) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), caracterizado por padrão persistente de comportamento de jogo com prejuízo significativo.
Riscos adicionais dentro das plataformas
Além da dependência digital, existem outros fatores de risco:
- Cyberbullying
- Contato com desconhecidos
- Exposição a conteúdos inadequados
- Incentivo a microtransações e compras repetidas
- Pressão social por performance
Como o Roblox permite que usuários criem jogos, nem todos passam por curadoria rígida de conteúdo.
Saúde mental: o impacto silencioso
O uso excessivo de jogos online pode estar associado a:
- Ansiedade social
- Sintomas depressivos
- Transtornos do sono
- Déficits de atenção
- Baixa tolerância à frustração
Adolescentes em sofrimento psíquico tendem a buscar no ambiente virtual uma forma de escape. O problema é quando o jogo passa a substituir o enfrentamento saudável das emoções.
O papel dos pais: supervisão e diálogo
Proibir radicalmente costuma gerar conflito e não resolve o problema. O caminho mais eficaz envolve:
- Estabelecer limites claros de tempo
- Manter o dispositivo fora do quarto à noite
- Ativar controle parental
- Conhecer os jogos que o filho utiliza
- Conversar sobre riscos online
A supervisão ativa reduz significativamente a exposição a situações perigosas.
Quando procurar ajuda especializada?
É hora de buscar avaliação profissional quando:
- O jovem apresenta crises de irritação severas
- Há recusa escolar
- O isolamento social é persistente
- Surgem sintomas de ansiedade ou depressão
- Há uso compulsivo associado a outras substâncias
A dependência digital pode coexistir com outros transtornos mentais, como TDAH, depressão ou transtornos de ansiedade.
No Hospital Santa Mônica, a internação psiquiátrica é indicada apenas quando há prejuízo significativo e risco à saúde do paciente — seja por transtorno mental ou por uso de substâncias associado.
Como funciona a internação psiquiátrica no Hospital Santa Mônica?
A internação é uma medida terapêutica estruturada, indicada quando o tratamento ambulatorial não é suficiente.
Ela inclui:
- Avaliação psiquiátrica completa
- Médico clínico, farmacêuticos e enfermagem 24 horas
- Ajuste medicamentoso
- Psicoterapia individual e em grupo
- Terapia assistida por cães
- Atividades físicas e expressivas
- Envolvimento familiar no tratamento
O objetivo não é punir nem isolar, mas estabilizar o quadro clínico e promover reabilitação psicossocial.
Importante: cada caso é avaliado individualmente por equipe especializada.
O que diferencia uso saudável de uso problemático?
| Uso saudável | Uso problemático |
| Tempo limitado | Horas excessivas |
| Não interfere na rotina | Prejuízo escolar/social |
| Controle emocional preservado | Irritabilidade intensa |
| Mantém atividades offline | Isolamento progressivo |
Conclusão: tecnologia exige presença, não ausência
O debate sobre telas e plataformas como o Roblox não deve ser conduzido pelo medo, mas pela responsabilidade. A tecnologia faz parte da vida contemporânea — inclusive como ferramenta de socialização e aprendizado. O problema começa quando substitui o sono, o convívio familiar, a escola e o cuidado com a saúde emocional.
O que pais precisam observar não é apenas “quanto tempo” o filho joga, mas como ele está depois que desliga a tela. Está irritado? Isolado? Dormindo mal? Evitando responsabilidades? Esses sinais falam mais alto do que o número de horas.
Quando há sofrimento psíquico, perda de controle ou prejuízo significativo na rotina, é fundamental buscar avaliação especializada. A intervenção precoce reduz riscos e amplia as chances de recuperação. Em casos mais graves — seja por dependência digital associada a outros transtornos mentais, seja por uso de substâncias — a internação psiquiátrica pode ser indicada como medida terapêutica estruturada e segura, sempre com acompanhamento multidisciplinar.
No Hospital Santa Mônica, o foco não é retirar o jovem do mundo, mas ajudá-lo a voltar a ele com equilíbrio, autonomia e saúde.
Tecnologia não é vilã. Ausência de limites e diálogo, sim. E saúde mental começa dentro de casa — com escuta, presença e orientação adequada.
FAQ – Perguntas mais comuns sobre perigo das telas e do Roblox
Não. O risco está no uso excessivo e sem supervisão adequada.
Não há número único, mas recomenda-se equilíbrio, sono adequado e pausas frequentes.
Observe perda de controle, irritabilidade e prejuízo funcional.
Sim, por meio de chats. O controle parental é essencial.
O uso excessivo está associado a maior risco de sintomas depressivos, mas não é causa única.
Não. É indicada apenas quando há prejuízo grave ou risco à saúde.
Sim. Psicoterapia, orientação familiar e, em alguns casos, suporte psiquiátrico.
Isoladamente, não. O mais eficaz é combinar limites, diálogo e acompanhamento.
Sim. Podem estimular criatividade e raciocínio quando usados com moderação.
REFERÊNCIAS
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11): Gaming Disorder. Genebra: WHO, 2019. Disponível em: https://icd.who.int/en. Acesso em: 25 fev. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Genebra: WHO, 2019. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241550536. Acesso em: 25 fev. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Genebra: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128. Acesso em: 25 fev. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-mental. Acesso em: 25 fev. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Crianças, adolescentes e telas: guia sobre uso de dispositivos digitais. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. Acesso em: 25 fev. 2026.
AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Media use in school-aged children and adolescents. Pediatrics, v. 138, n. 5, 2016. Disponível em: https://publications.aap.org. Acesso em: 25 fev. 2026.
BOERS, E. et al. Association of screen time and depression in adolescence. JAMA Pediatrics, 2019. Disponível em: https://jamanetwork.com. Acesso em: 25 fev. 2026.
TWENGE, J. M.; CAMPBELL, W. K. Associations between screen time and lower psychological well-being among children and adolescents. Preventive Medicine Reports, 2018. Disponível em: https://www.sciencedirect.com. Acesso em: 25 fev. 2026.