O que a ciência revela sobre o comportamento de jogadores de bingo, videopoker e Jockey Club
O jogo que não termina
Há uma fronteira tênue entre o lazer e a compulsão. Para a maioria das pessoas, jogar no bingo, apostar numa corrida de cavalos ou sentar diante de uma máquina de videopoker é uma forma de diversão, um passatempo ocasional. Para uma parcela significativa, porém, esse comportamento ultrapassa os limites do controle voluntário e se transforma em jogo patológico — um transtorno reconhecido pela psiquiatria desde 1980, quando foi incluído no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III).
No Brasil, a discussão sobre esse problema ganhou uma contribuição científica relevante com a dissertação de mestrado conduzida pela Dra. Maria Paula de Magalhães Tavares de Oliveira, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Intitulado Jogo Patológico: Um Estudo sobre Jogadores de Bingo, Videopoker e Jockey Club, o trabalho investigou 171 frequentadores de três ambientes distintos de jogo na cidade de São Paulo, lançando luz sobre um fenômeno ainda pouco estudado no contexto nacional.
Como médico psiquiatra do Hospital Santa Mônica — referência no tratamento de transtornos mentais e dependências químicas em São Paulo —, reconheço nessa pesquisa um retrato fiel dos pacientes que chegam até nós em busca de ajuda. As descobertas merecem ser conhecidas pelo público, pelas famílias e pelos profissionais de saúde.
O que é o Jogo Patológico?
O jogo patológico é classificado como um transtorno do controle dos impulsos, caracterizado pela incapacidade persistente e recorrente de resistir ao impulso de jogar, mesmo diante de consequências graves — financeiras, familiares, profissionais e emocionais. Segundo os critérios do DSM-IV, o diagnóstico requer a presença de pelo menos cinco de dez indicadores, entre eles:
• Preocupação constante com o jogo e com formas de obter dinheiro para jogar;
• Necessidade progressiva de apostar valores cada vez maiores para obter a mesma sensação de excitação;
• Tentativas repetidas e fracassadas de controlar ou parar de jogar;
• Irritabilidade ou inquietação ao tentar reduzir o jogo;
• Uso do jogo como fuga de problemas ou para aliviar estados emocionais negativos como depressão e ansiedade;
• Mentir para familiares e profissionais de saúde para esconder o envolvimento com o jogo;
• Comprometimento de relacionamentos, empregos e oportunidades em razão do jogo.
A trajetória típica do jogador patológico, descrita por Custer e Milt, evolui em três fases: vitória, perda e desespero. Na última delas, o indivíduo já está em estado de exaustão física e emocional, frequentemente apresentando depressão grave e pensamentos suicidas.
O que a pesquisa revelou
O Perfil dos Jogadores
O estudo avaliou 171 jogadores — 63 no Jockey Club de São Paulo, 65 em casas de bingo e 43 em casas de videopoker — por meio de uma versão adaptada da escala SOGS (South Oacks Gambling Screen), instrumento validado internacionalmente para identificação de jogadores patológicos.
O perfil predominante foi de homens (84,5%), casados (57%), católicos (81%), com segundo grau ou ensino superior completo (83%) e empregados em tempo integral (72%). A média de idade foi de 40 anos e a renda familiar mediana, de R$ 4.000,00 — valores que correspondem a uma população economicamente ativa e socialmente integrada, o que reforça um dado importante: o jogo patológico não é um problema restrito a camadas socialmente vulneráveis.
Jogadores Patológicos vs. Não Patológicos: o que os diferencia?
Um achado central da pesquisa merece atenção especial: jogadores patológicos e não patológicos não se distinguiram em nenhuma característica sociodemográfica. Mesmo sexo, faixa etária, nível de escolaridade e renda. A diferença está no comportamento.
Comparados aos não patológicos, os jogadores patológicos apresentaram:
• Maior diversidade de jogos ao longo da vida, com participação significativamente maior em cartas, corridas de cavalos, videopoker e dados;
• Maior frequência de videopoker nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias;
• Apostas financeiras muito superiores em um único dia;
• Relato de ganhos mais altos — o que frequentemente alimenta a escalada do comportamento de jogar;
• Maior saudade do jogo nos períodos em que pararam de jogar.
O peso emocional do jogo
A dimensão emocional é uma das contribuições mais ricas dessa pesquisa. Ao serem questionados sobre como se sentiam antes, durante e depois de jogar, os dois grupos revelaram diferenças expressivas.
Antes de jogar: não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, mas observou-se uma tendência nos jogadores patológicos a relatarem tensão, ansiedade e apreensão — sentimentos que o jogo seria capaz de aliviar momentaneamente.
Depois de jogar: aqui a diferença é marcante. Enquanto não patológicos relataram sentir-se bem e tranquilos após o jogo, os patológicos descreveram sentimentos de tristeza, arrependimento, culpa, frustração e depressão, de forma estatisticamente significativa (p=0,001 para bem-estar; p=0,007 para tranquilidade).
Quando paravam de jogar: jogadores patológicos descreveram sentimentos negativos intensos — vazio, angústia, falta de sentido — enquanto os não patológicos relatavam neutralidade emocional.
“O que chamamos de jogo patológico não é fraqueza de caráter nem falta de força de vontade. É um transtorno neuropsiquiátrico com mecanismos semelhantes aos da dependência química. O paciente perde progressivamente a capacidade de controlar o próprio comportamento, mesmo querendo parar.”
— Dr. Rodrigo Vidovix, médico psiquiatra do Hospital Santa Mônica
Diferenças entre os tipos de jogo
A pesquisa também comparou os jogadores patológicos entre si, de acordo com o tipo de jogo praticado. As diferenças encontradas são clinicamente relevantes:
Bingo: maior proporção de jogadores casados. O ambiente do bingo, frequentemente percebido como um espaço de socialização familiar, pode mascarar por mais tempo a progressão do transtorno.
Videopoker: presença proporcionalmente maior de jogadores jovens, o que acende um alerta sobre a vulnerabilidade de faixas etárias mais jovens a modalidades de jogo de ritmo acelerado e imersivas.
Jockey Club: maior frequência de apostas em esportes, discussões familiares relacionadas ao dinheiro gasto no jogo e empréstimos com agiotas — sinais de maior comprometimento financeiro e familiar.
“Cada modalidade de jogo tem um perfil de risco. O videopoker preocupa especialmente pelo ritmo acelerado e pela imersão que proporciona. No Jockey Club, os prejuízos financeiros e os conflitos familiares tendem a ser mais evidentes. Conhecer essas diferenças é fundamental para um tratamento personalizado.”
— Dr. Rodrigo Vidovix
Jogo Patológico e Dependência Química: uma relação importante
Um dos aspectos mais relevantes da literatura sobre jogo patológico — e que a pesquisa da Dra. Maria Paula contextualiza com precisão — é a estreita relação entre o jogo compulsivo e o uso de álcool e outras drogas.
O jogo patológico tem sido descrito como uma dependência sem substância. Jogadores relatam sensações semelhantes à fissura (craving), tolerância progressiva (necessidade de apostar mais para sentir o mesmo prazer), síndrome de abstinência com sintomas físicos e emocionais ao parar de jogar, e recaídas mesmo após longos períodos de abstinência.
No estudo da USP, o único fator de uso de substâncias que diferenciou significativamente os dois grupos foi o tabagismo na vida: jogadores patológicos fumaram mais. Esse achado está alinhado com a literatura internacional, que aponta comorbidade frequente entre jogo patológico, depressão, transtornos de ansiedade e uso de substâncias psicoativas.
No Hospital Santa Mônica, tratamos diariamente pacientes que chegam com essas sobreposições. O jogo que começou como fuga da depressão, o álcool que entrou para lidar com as dívidas do jogo, a ansiedade que permanece após a abstinência. São histórias complexas, que exigem uma abordagem integrativa e multiprofissional.
Por que tão poucos buscam ajuda?
Um dado alarmante identificado na pesquisa: apenas 4,9% dos jogadores pesquisados relataram ter buscado ajuda profissional em razão de problemas associados ao jogo.
Esse número reflete um padrão bem documentado na literatura: o jogador patológico tende a minimizar o problema, a acreditar que pode parar sozinho, e a sentir vergonha de expor o comportamento — especialmente quando enfrenta dívidas ou conflitos familiares associados.
“A baixíssima busca por tratamento é um reflexo do estigma que ainda envolve o jogo patológico. As pessoas sentem vergonha, acham que são fracas, que deveriam ter mais controle. Mas o problema é clínico. Quanto mais cedo o paciente chega, maiores são as chances de recuperação.”
— Dr. Rodrigo Vidovix, médico psiquiatra do Hospital Santa Mônica
É fundamental que familiares e pessoas próximas estejam atentos aos sinais: mudanças de humor relacionadas ao jogo, segredos sobre dinheiro, dívidas inexplicáveis, ausências frequentes, isolamento social e irritabilidade quando o tema é abordado.
Tratamento: o caminho existe
O jogo patológico é um transtorno tratável. As abordagens com melhores evidências científicas incluem:
• Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): trabalha as crenças irracionais sobre o jogo, os gatilhos emocionais e as estratégias de prevenção de recaída;
• Psicoterapia individual e grupal: essenciais para a compreensão dos determinantes emocionais do comportamento;
• Psicoterapia familiar e de casal: fundamental, dado o alto impacto do jogo sobre as relações familiares;
• Tratamento farmacológico: especialmente quando há comorbidades como depressão, ansiedade ou transtorno obsessivo-compulsivo;
• Grupos de autoajuda como os Jogadores Anônimos: importante fonte de suporte e pertencimento;
• Internação hospitalar: indicada nos casos mais graves, especialmente quando há risco de suicídio, dívidas extremas ou perda total do funcionamento.
No Hospital Santa Mônica, contamos com uma equipe especializada para o tratamento de dependências comportamentais, incluindo o jogo patológico. Nosso trabalho parte de uma avaliação psiquiátrica completa e evolui para um plano terapêutico individualizado, que considera o contexto familiar, as comorbidades e os recursos do paciente.
Considerações Finais
A pesquisa conduzida pela Dra. Maria Paula de Magalhães Tavares de Oliveira na USP representa uma contribuição pioneira para a compreensão do jogo patológico no Brasil. Ao mapear as diferenças entre jogadores patológicos e não patológicos em três ambientes distintos, o estudo demonstrou que o problema não tem rosto único — e que pode estar presente em qualquer perfil socioeconômico.
O jogo patológico é uma doença silenciosa. Muitas vezes, o paciente e a família demoram anos para reconhecer que o comportamento saiu do controle. A negligência desse reconhecimento tem um custo alto: financeiro, relacional, emocional e, em casos extremos, vital.
Se você ou alguém próximo apresenta sinais de dependência do jogo, procure ajuda especializada. O Hospital Santa Mônica está preparado para acolher, avaliar e tratar. A recuperação é possível — e começa com o primeiro passo.
Sobre o Autor
Dr. Rodrigo Vidovix — Médico Psiquiatra do Hospital Santa Mônica, referência no tratamento de transtornos psiquiátricos e dependências em Itapecerica da Serra, São Paulo. O Hospital Santa Mônica possui acreditação ONA 3 Ouro, o mais alto nível de certificação hospitalar no Brasil.
Referência Científica
OLIVEIRA, Maria Paula de Magalhães Tavares de. Jogo Patológico: Um Estudo sobre Jogadores de Bingo, Videopoker e Jockey Club. Dissertação de Mestrado — Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997. Orientadora: Profa. Dra. Maria Teresa de Araújo Silva.