DEPOIMENTO DE RECUPERAÇÃO • DEPENDÊNCIA EM JOGOS DE APOSTA
Rafael, 31 anos, compartilha sua jornada de perdas, internação voluntária e reconstrução após a dependência em bets — e como a família foi o alicerce de tudo
Cristina Collina
Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.
Comunicação em SaúdeEm 2018, Rafael tinha uma empresa próspera de piscinas no litoral de São Paulo, tocada ao lado do pai, e um futuro que parecia certo. Seis anos depois, havia perdido R$ 100 mil em jogos de aposta online e chegado ao fundo do poço. O que o trouxe de volta foi uma rede de amor — a família que nunca o abandonou — e uma decisão corajosa: se internar voluntariamente. Este é o relato de quem enfrentou o abismo e escolheu voltar.
A empresa, o pai e o fim de uma fase
Em 2018, Rafael montou uma empresa de piscinas em Peruíbe, no litoral paulista, em sociedade com um amigo. Ao seu lado, como sempre, estava seu pai — parceiro de trabalho, mentor e maior apoiador. A presença paterna no negócio não era apenas operacional: era o símbolo de uma cumplicidade que Rafael carrega até hoje.
A empresa foi bem, cresceu. Mas a sociedade com o amigo chegou ao fim, e com ela o negócio foi encerrado. O ressentimento desse encerramento se somou ao término de um relacionamento afetivo que também o abalou profundamente. “Foi tudo junto”, recorda Rafael.
Com um desentendimento familiar somado a esse peso emocional, Rafael tomou uma decisão abrupta: mudou-se para Florianópolis para tentar a vida como corretor de imóveis de alto padrão. A nova cidade, no entanto, não se mostrou o recomeço que ele esperava.
A família que foi buscar — literalmente
Em Florianópolis, a carreira de corretor não decolou. O acúmulo de frustrações resultou em uma crise muito forte de ansiedade. Foi então que a família entrou em cena de forma concreta: foram até Florianópolis buscar Rafael e o trouxeram de volta a São Paulo.
Sua irmã, médica socorrista, foi uma peça fundamental nesse processo. Com o olhar clínico de quem conhece crises e a sensibilidade de irmã, ela ajudou a família a identificar a gravidade do quadro e a agir. “Minha irmã sempre esteve presente. Ela sabia o que estava acontecendo comigo de um jeito que ia além do que eu conseguia ver”, conta Rafael.
De volta à cidade, Rafael encontrou nos jogos de aposta online uma válvula — que logo se tornaria uma armadilha.
R$ 100 mil e o fundo do poço
As bets começaram com vitórias. E é exatamente aí que está a armadilha. Rafael ganhou — mas também perdeu muito. Chegou a perder R$ 100 mil. O ciclo compulsivo avançava silenciosamente, enquanto as finanças e a saúde emocional se deterioravam.
Foi sua mãe quem deu o primeiro passo: começou a buscar informações sobre tratamento para dependência em jogos. Em fevereiro de 2025, Rafael tomou a decisão que mudaria sua vida — e que só foi possível porque havia uma família inteira sustentando esse momento: se internou voluntariamente.
Os primeiros dias: lágrimas e uma virada
Os primeiros dias de internação foram muito difíceis. Rafael chorava sem parar. Foi um outro paciente que o acolheu e lhe disse, com a franqueza de quem também estava no processo: era preciso reagir.
Dentro do hospital, Rafael conheceu histórias de pessoas que haviam passado por situações ainda mais difíceis do que a sua. Esse contato foi transformador. “Ouvi histórias que me fizeram enxergar o quanto eu ainda tinha. Me fez dar valor à minha família de um jeito diferente — eles sempre estiveram lá por mim”, reflete.
Rafael passou a participar de todas as atividades terapêuticas. As palestras do psicólogo Alef Ferreira foram particularmente impactantes. O acompanhamento da Dra. Carla Mendes, psiquiatra do hospital, também foi fundamental para a sua recuperação. Ficou dois meses internado e elogia cada profissional da equipe.
“A internação foi um marco. Fui entendendo que precisava reagir e me tratar para sair desse quadro de dependência. Além disso, a visita dos meus pais aos finais de semana e da Tia Rosana, semanalmente, às quintas-feiras, bem como dos meus padrinhos, deram força para o meu processo de superação.”
“Conhecer histórias mais difíceis do que a minha dentro do hospital me fez enxergar o quanto eu tinha — e o quanto minha família sempre esteve lá por mim.”
Um ano depois: aniversário, recomeço e o sonho da piscina
No último dia 30 de março, Rafael completou 31 anos. Um ano após a internação, ele descreve sua vida com uma palavra que parecia distante: esperança.
Hoje trabalha como motorista de aplicativo e na Mary Kay, reconstruindo sua estabilidade financeira passo a passo. Está em um novo relacionamento. E mantém vivo o sonho que também é o do seu pai: um dia voltar a ter a própria empresa de piscinas.
O pai que trabalhou ao seu lado, a mãe que buscou ajuda quando ele não conseguia, e a irmã que soube reconhecer a gravidade do momento — essa tríade de amor é o que Rafael aponta como o seu maior alicerce. “Minha família foi fundamental. Sem eles, eu não estaria aqui.”
E, talvez o aprendizado mais precioso: “Hoje sei quando vou ter uma crise de ansiedade — e sei como fazer para que ela não se instale.”
Depoimento colhido com autorização do paciente • Nome e imagem autorizados para publicação