Como a espiritualidade pode fortalecer a saúde emocional e auxiliar no tratamento psiquiátrico, segundo especialistas da ABP
Redação: Cristina Collina | Jornalista especializada em saúde mental | MTB 0081755. Fonte: Entrevista com Dr. Alexander Moreira Almeida, psiquiatra, CRM: 44239 / MG / RQE: 26052.
A relação entre espiritualidade e saúde mental ganhou destaque no Congresso Brasileiro de Psiquiatria 2025, principalmente após a conferência do Dr. Alexander Moreira Almeida, psiquiatra, pesquisador e referência internacional no tema.
Evidências científicas mostram que práticas espirituais — quando respeitosas, seguras e alinhadas à cultura do paciente — estão associadas a menor prevalência de depressão, redução do uso de álcool e drogas e recuperação mais rápida em diversos transtornos psiquiátricos.
A espiritualidade, segundo o especialista, não é um substituto para o tratamento médico, mas um componente humano fundamental que pode potencializar o cuidado.
Por que falar de espiritualidade na psiquiatria contemporânea?
Durante décadas, a saúde mental foi compreendida de forma estritamente técnica e biomédica. Entretanto, estudos das últimas duas décadas — conduzidos por instituições como Harvard, Duke University e OMS — vêm demonstrando que dimensões espirituais fazem parte da experiência humana e influenciam o bem-estar psicológico.
O Dr. Alexander Moreira Almeida, professor titular da UFJF e fundador da Seção de Espiritualidade da ABP, reforçou no CBP 2025 que mais de 3.000 estudos científicos já investigaram a relação entre religiosidade/espiritualidade e saúde mental. A maioria deles aponta resultados positivos, especialmente em quadros de ansiedade, depressão e comportamentos relacionados ao uso de substâncias.
“Ignorar a espiritualidade é ignorar uma parte importante da vida do paciente”, destacou o psiquiatra na conferência.
Evidências científicas: o que os estudos mostram?
Pesquisas internacionais revelam que pessoas com maior envolvimento religioso ou espiritual apresentam:
- 40% menor risco de desenvolver depressão, Harvard T.H. Chan School of Public Health, 2020.
- Até 60% menos chance de uso problemático de álcool e outras substâncias, Duke University, 2017.
- Maior resiliência em situações de estresse, luto e doenças graves.
- Melhor adesão ao tratamento médico, incluindo uso correto de medicações.
- Recuperação mais rápida após episódios psiquiátricos.
Esses benefícios não estão relacionados a uma religião específica, mas à vivência subjetiva de propósito, conexão, esperança e sentido de vida.
Como a espiritualidade auxilia no tratamento psiquiátrico?
A espiritualidade pode funcionar como um fator de proteção emocional, oferecendo ao paciente:
- senso de pertencimento (comunidade, apoio social);
- esperança e motivação para a recuperação;
- práticas que reduzem o estresse (orações, meditação, rituais simbólicos);
- valores que favorecem autocuidado, disciplina e resiliência.
Na prática clínica, psiquiatras e psicólogos são orientados — inclusive pela OMS e pela ABP — a perguntar sobre a espiritualidade dos pacientes como parte da avaliação integral, sempre com respeito e sem indução religiosa.
O papel do Hospital Santa Mônica
O Hospital Santa Mônica, referência em saúde mental e psiquiatria, integra essa visão ampliada do cuidado. A equipe multidisciplinar inclui psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros capacitados a:
- acolher a dimensão espiritual do paciente, se ele desejar;
- integrar práticas seguras, como grupos de apoio, meditação e rodas de reflexão;
- orientar sobre comportamentos relacionados ao uso de substâncias com abordagem humanizada;
- oferecer tratamento baseado em evidências, aliado ao respeito às crenças pessoais.
O modelo do hospital reforça que espiritualidade não substitui o tratamento médico, mas pode somar como estratégia de fortalecimento emocional e motivacional.
Espiritualidade não é religião: qual a diferença?
A espiritualidade é uma experiência interna de busca por sentido, conexão e propósito. Já a religião envolve doutrinas, rituais e comunidades organizadas. Ambas podem coexistir, mas a espiritualidade é mais ampla e pessoal.
Na saúde mental, o foco é compreender o que faz sentido para o paciente, e não promover qualquer crença.
Riscos e limites: quando a espiritualidade pode prejudicar?
Embora traga benefícios, a espiritualidade pode gerar impactos negativos quando:
- é utilizada como substituição do tratamento médico (“fé suficiente para curar”);
- envolve práticas abusivas, promessas de cura milagrosa ou exploração emocional;
- reforça culpa, medo ou sentimentos de inadequação.
Por isso, profissionais qualificados avaliam sempre o contexto e orientam com responsabilidade.
Exemplos práticos: espiritualidade no cotidiano do paciente
- Uma paciente com depressão que encontra motivação em participar de grupos comunitários religiosos — aumentando rede de apoio.
- Um jovem com transtorno por uso de substâncias que incorpora meditação guiada para controlar impulsos.
- Um paciente em luto que encontra na espiritualidade uma forma de ressignificar perda e reduzir sintomas ansiosos.
Essas práticas são complementares ao tratamento psiquiátrico e devem ser acompanhadas por profissionais.
FAQ – Perguntas e Respostas sobre Espiritualidade e Saúde Mental
Não. A espiritualidade pode apoiar a recuperação, mas não substitui medicação, psicoterapia ou acompanhamento médico.
Fontes: OMS (https://www.who.int), Harvard (https://www.harvard.edu).
Espiritualidade é uma busca individual por sentido; religião é organizada, com rituais e doutrinas.
Fonte: APA – American Psychological Association (https://www.apa.org).
Sim, estudos mostram redução de sintomas depressivos e maior bem-estar emocional. Fonte: Duke University (https://duke.edu).
Pesquisas indicam menor prevalência de comportamentos relacionados ao uso de substâncias entre pessoas com maior envolvimento religioso.
Fonte: Journal of Substance Abuse (https://www.sciencedirect.com).
Sim, a OMS recomenda incluir esse tema na avaliação integral do paciente. Fonte: OMS (https://www.who.int).
Sim, quando envolve manipulação, culpa ou substituição do tratamento médico. Fonte: ABP (https://www.abp.org.br).
Sim, e estudos mostram que pode reduzir ansiedade e estresse.
Fonte: NIH – National Institutes of Health (https://www.nih.gov).
Sim, respeitando sempre as crenças do paciente e sem substituir o tratamento psiquiátrico.
REFERÊNCIAS CONFIÁVEIS
Revisões sistemáticas e artigos científicos
- Koenig HG (2012 / atualizado)
Religion, spirituality, and health: The research and clinical implications
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22894850/ - Bonelli RM & Koenig HG (2013)
Mental disorders, religion and spirituality 1990–2010: a systematic review
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23389610 - Jim et al. (2015)
Religion, spirituality, and physical health in cancer patients: A meta-analysis
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26258868/ - Park CL et al. (2017)
Religion/spirituality and health: A meaning systems perspective
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28221066/ - Edlund MJ et al. (2010)
Religiosity and decreased risk of substance use disorders
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20445406/ - Kendler KS et al. (2003)
Dimensions of religiosity and substance use
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12832249/ - Duke University – Koenig HG (Center for Spirituality, Theology and Health)
➡️ https://spiritualityandhealth.duke.edu/ - Smith TB et al. (2003)
Religiousness and depression: Evidence for a main effect and moderating influence
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12635930/ - Braam AW & Koenig HG (2019)
Religion, spirituality and depression in prospective studies
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30689987/ - Organização Mundial da Saúde (OMS)
➡️ https://www.who.int - American Psychiatric Association (APA)
➡️ https://www.psychiatry.org - Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)
➡️ https://www.abp.org.br - Moreira-Almeida A. et al. (UFJF)
Spirituality and mental health: a review of the literature
➡️ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19585452/ - Revista SMAD (USP)
➡️ https://www.revistas.usp.br/smad