Reflexões a partir da palestra do Dr. Carlos Eduardo Zacharias no Congresso Brasileiro de Psiquiatria
A emergência psiquiátrica costuma ser tratada como um evento isolado — um ponto de ruptura aguda que exige contenção, estabilização e encaminhamento. No entanto, essa visão é limitada.
A crise psiquiátrica que chega ao pronto atendimento raramente é um fenômeno súbito: ela representa, na maioria das vezes, o resultado acumulado de falhas estruturais no sistema de saúde brasileiro.
A palestra do Dr. Carlos Eduardo Kerbeg Zacharias, psiquiatra, membro da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria e ex-diretor técnico do Hospital Santa Mônica, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria em 2025, mostra exatamente essa realidade da assistência: hoje em dia, a emergência não é um desvio do sistema; ela é seu espelho mais fiel.
O equívoco central: confundir estigma com realidade clínica
Um dos pontos mais provocativos apresentados foi a necessidade de diferenciar preconceito social de risco clínico. Existe uma tendência, por vezes bem-intencionada, de negar qualquer associação entre doença mental e comportamentos potencialmente perigosos.
Essa negação, contudo, pode obscurecer um fato clínico incontornável: transtornos mentais graves não tratados podem, sim, aumentar o risco de desorganização comportamental.
O ponto central não é patologizar o paciente, mas reconhecer que a ausência de tratamento é o verdadeiro fator de risco.
O estigma não reside em admitir a complexidade clínica — reside em permitir que preconceito, vergonha e descrédito institucional afastem o paciente do cuidado.
Quando isso ocorre, a emergência passa a lidar com quadros mais graves, mais desorganizados e mais difíceis de manejar.
Negar essa realidade não protege o paciente; ao contrário, contribui para o atraso terapêutico.
A crise psiquiátrica não obedece à lógica do paciente clínico
Um aspecto fundamental — e frequentemente negligenciado — é que a crise psiquiátrica altera o próprio mecanismo de busca por ajuda.
Diferentemente do paciente clínico, que procura assistência diante do sofrimento físico, muitos pacientes em crise apresentam prejuízo de insight, crítica e julgamento.
O abandono do tratamento, a desconfiança em relação à equipe e a recusa de cuidado não são meras escolhas comportamentais: são manifestações da doença. Interpretar esses fenômenos sob uma lógica moral ou administrativa revela incompreensão da própria psicopatologia.
Esse erro conceitual tem consequências práticas: serviços despreparados respondem com impaciência, rotulação ou afastamento — exatamente o oposto do que a situação exige.
O falso “caso social”: quando o efeito é tratado como causa
Outro ponto relevante é a tendência de rotular situações complexas como “problemas sociais”, descolando-as de sua origem clínica.
Famílias sobrecarregadas, incapacidade de manutenção do tratamento e desorganização domiciliar frequentemente são consequências diretas de transtornos mentais graves.
Quando o sistema interpreta esses cenários apenas como vulnerabilidade social, perde-se a oportunidade de intervenção clínica adequada. A doença mental não é apenas um elemento do contexto — muitas vezes, é o fator estruturante da crise familiar.
Essa distinção é crucial para o planejamento terapêutico e a formulação de políticas públicas.
Emergência superlotada: sintoma de uma rede insuficiente
A sobrecarga crônica das emergências psiquiátricas não é um fenômeno acidental. Ela reflete uma combinação de:
• redução de leitos psiquiátricos em hospitais especializados;
• falta de unidades psiquiátricas em hospitais gerais (não confundir com o que se chama de “leitos psiquiátricos em hospitais gerais”, o que é uma aberração para a eficácia de qualquer tratamento sério);
• retirada dos ambulatórios de psiquiatria das RAPS;
• falta de ambulatórios em quantidade e qualidade suficientes, com psiquiatras devidamente qualificados, tanto no serviço público quanto no privado;
• descontinuidade assistencial;
• ausência de fluxos integrados.
Quando a rede falha, a emergência se torna o ponto de absorção universal — clínica, social e institucional.
Pacientes permanecem mais tempo do que o adequado, retornam repetidamente e enfrentam ciclos de desassistência que culminam em transinstitucionalização: rua, abrigo, sistema prisional ou reinternações sucessivas (fenômeno da “porta giratória”).
Não se trata apenas de um problema de gestão hospitalar — é uma falha estrutural do modelo assistencial.
O paradoxo da tolerância institucional
Existe, ainda, um fenômeno cultural menos discutido: a psiquiatria frequentemente é tolerada, mas não plenamente integrada ao sistema hospitalar. Essa tolerância limitada se traduz em infraestrutura inadequada, equipes insuficientemente treinadas e resistência institucional em reconhecer a complexidade da emergência psiquiátrica.
O resultado é um ambiente que deveria ser terapêutico, mas que, muitas vezes, reforça estigmas — inclusive dentro da própria saúde.
Emergência como indicador sistêmico
Se há uma mensagem central nas reflexões apresentadas, é que a emergência psiquiátrica funciona como um marcador sensível da saúde do sistema. Onde há crise recorrente, superlotação e manejo inadequado, há falha estrutural prévia.
Investir em emergência psiquiátrica não significa apenas ampliar leitos ou protocolos — implica:
• fortalecer o cuidado ambulatorial;
• integrar níveis assistenciais;
• qualificar equipes;
• reconhecer a doença mental como condição médica legítima e complexa.
O doente mental bem tratado raramente representa perigo para a sociedade, mas o doente mental sem tratamento representa um risco muito alto, sobretudo para si mesmo e, como se observa nos dias de hoje, para a sociedade como um todo; isso não é estigma ou preconceito, é a realidade que se impõe.
Conclusão: a crise como oportunidade de revisão
A emergência psiquiátrica nos obriga a encarar o que frequentemente evitamos: a doença mental grave existe, exige estrutura robusta e não se resolve apenas com discursos humanitários ou reducionismos administrativos.
Humanização real não é negar a gravidade — é oferecer cuidado proporcional à complexidade. Isso exige coragem institucional, clareza técnica e compromisso com uma psiquiatria que reconhece tanto a dimensão clínica quanto a sistêmica do sofrimento mental.
Enquanto tratarmos a emergência como exceção, continuaremos reagindo a crises que poderiam ser prevenidas. Reconhecê-la como espelho do sistema é o primeiro passo para transformá-lo.
Referência
ZACHARIAS, Carlos Eduardo Kerbeg. Emergência psiquiátrica e organização da rede assistencial. Palestra apresentada no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, 2025.