Histórias de Recuperação

Um Novo Começo: a história de superação de “Alexandre” após dependência alcoólica e traumas na infância

César Alexandre tem 43 anos e está em processo de recuperação da dependência alcoólica. Sua história começa na infância, marcada por abuso sexual prolongado, evolui para o uso precoce de drogas, consumo de cocaína ainda na adolescência e, mais tarde, para o alcoolismo com perda total de controle. Após episódios graves, incluindo ingestão de álcool não próprio para consumo, encontrou na internação e no reconhecimento da doença o ponto de virada. Hoje, reconstrói sua vida com consciência, limites e protagonismo.

Depoimento: César Alexandre, 43 anos, ex-paciente · Leitura: ~6 min

Cristina Collina
Redação
Cristina Collina

Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.

Comunicação em Saúde
RESPOSTA RÁPIDA — para familiares e pacientes
Sim, é possível se recuperar do alcoolismo, mesmo em casos graves, com perda de controle e consumo extremo. A história de “Alexandre”, que chegou a ingerir álcool de uso doméstico e perdeu completamente o protagonismo da própria vida, mostra que a internação especializada, aliada à aceitação da doença e ao suporte familiar, pode ser o ponto de virada. Hoje, ele resume sua trajetória em uma palavra: recomeço através do reconhecimento da própria condição.
1 fator decisivo aceitação de que estava doente  1 internação
Ponto de virada na vida
100%
perda de controle
sobre o uso de álcool    

Quando a dor começa cedo: trauma na infância e suas consequências

A história de César Alexandre não começa na vida adulta — começa na infância.

Ele foi vítima de abuso sexual entre os 4 e 12 anos de idade, um trauma profundo, silencioso e prolongado. Sem suporte emocional adequado na época, cresceu carregando essa dor.

Como acontece em muitos casos clínicos, o sofrimento psíquico não tratado encontrou um caminho:

  • o uso de substâncias.

Ainda na pré-adolescência, iniciou o consumo de drogas, começando diretamente com cocaína. Mais tarde, o álcool entrou como uma extensão desse processo.

“É como descer uma ladeira. Você não percebe quando perdeu o controle.” – César Alexandre, ex-paciente do Hospital Santa Mônica

A falsa sensação de controle

Por anos, Alexandre acreditou que tinha domínio sobre o álcool. Bebia aos finais de semana, mantinha rotina, funcionava socialmente.

Mas esse padrão mudou.

Os episódios de apagão (blackouts) começaram a aparecer — sinais clássicos de dependência alcoólica avançando. Ainda assim, ele não se reconhecia como doente.

Até que veio o colapso.

O fundo do poço: perda total de controle

A progressão foi rápida e perigosa.

Sem conseguir interromper o consumo, Alexandre passou a ingerir até álcool não destinado ao consumo humano.

Nesse estágio, já não havia mais escolha consciente — apenas compulsão.

“Eu não conseguia parar. Eu simplesmente perdia o controle.” – Alexandre

Esse é um ponto crítico do transtorno por uso de álcool:
o momento em que a substância assume o comando do comportamento.

O papel da família: intervenção que salva

A virada começou fora dele — na esposa e em um amigo próximo.

Diante da gravidade, eles tomaram uma decisão difícil, mas necessária: a internação.

“As pessoas acham que é falta de vontade. Não é. É doença.” – Alexandre

Esse é um dos principais pontos de atraso no tratamento:
famílias que interpretam dependência como falha moral, e não como condição clínica.

A internação: quebra da negação

Alexandre chegou à internação ainda sem consciência da gravidade.

Acreditava que ficaria apenas três dias.

Ficou muito mais.

Nos primeiros dias, enfrentou desorientação, resistência e negação — respostas esperadas nesse tipo de quadro.

Com o tempo, algo mudou.

O ponto de virada: reconhecer que está doente

O maior avanço não foi físico — foi psicológico.

“Eu entendi que estava doente. Ponto.” – Alexandre

Esse reconhecimento é central no tratamento da dependência química.

Sem ele, qualquer intervenção tende a falhar.

Com ele, o tratamento passa a fazer sentido.

O processo terapêutico: rotina, disciplina e reconstrução

Durante a internação, Alexandre mergulhou no processo:

  • Participação ativa nas terapias
  • Atividades físicas e rotina estruturada
  • Convivência terapêutica
  • Reorganização de hábitos básicos

Pequenas ações — como arrumar a própria cama — passam a ter valor clínico:
reconstruir autonomia e responsabilidade.

Espiritualidade e saúde mental: um suporte importante

Um ponto relevante na recuperação de Alexandre foi a espiritualidade.

Mesmo com acompanhamento de um psicólogo ateu, ele foi incentivado a manter aquilo que lhe fazia sentido.

“Se isso te faz bem, vá.” – Alexandre

Na prática clínica, isso reforça um princípio importante:
tratamento centrado no paciente — respeitando crenças, valores e identidade.

“Você perde o protagonismo da sua vida”

Um dos relatos mais fortes de Alexandre é sobre a perda de si mesmo.

A dependência não afeta apenas o comportamento — ela desorganiza identidade, memória e percepção.

No caso dele, houve inclusive reativação de conteúdos traumáticos da infância.

Isso mostra como dependência química e trauma frequentemente estão interligados.

A vida depois: reconstrução com consciência

Hoje, Alexandre entende algo fundamental:

  • Ele não pode beber socialmente
  • Não existe “controle moderado” no seu caso
  • A abstinência é parte do tratamento

Essa clareza marca a diferença entre recaída e recuperação sustentada.

Em uma palavra: recomeço

Quando resume sua trajetória, Alexandre é direto:

“Reconheço.” – Alexandre

Reconhecer a doença.
Reconhecer limites.
Reconhecer a necessidade de ajuda.

É esse reconhecimento que transforma a história.

Contexto clínico — equipe do Hospital Santa Mônica
Programa de Dependência Química · Suporte Familiar
“O transtorno por uso de álcool é uma condição crônica, progressiva e potencialmente fatal. Em estágios avançados, o paciente perde completamente a capacidade de controle sobre o consumo, podendo recorrer a substâncias inadequadas para ingestão. O tratamento exige intervenção especializada, desintoxicação supervisionada, abordagem psicoterapêutica e, principalmente, aceitação da doença por parte do paciente.”  
Você é familiar de um dependente químico e precisa de apoio? A dependência alcoólica tem tratamento — mesmo nos casos mais graves. Buscar ajuda não é fraqueza.
É o primeiro passo para retomar a própria vida.
☎️  (11) 4668-7455 — Atendimento 24 horas
→  Saiba mais sobre dependência química: hospitalsantamonica.com.br/dependencia-quimica/
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