Danos podem ser permanentes e atingir jovens cada vez mais cedo
Cristina Collina
Jornalista especializada em saúde mental | MTb 0081755/ SP.
Comunicação em SaúdeO aumento do consumo de substâncias psicoativas por via nasal tem acendido um alerta entre especialistas em otorrinolaringologia. O que muitos usuários enxergam apenas como um efeito momentâneo pode deixar sequelas importantes no nariz, na respiração, no olfato e até favorecer infecções graves.
Segundo médicos da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, o uso frequente dessas substâncias pode provocar lesões progressivas na mucosa nasal, causando sangramentos recorrentes, crostas, infecções e, em casos mais avançados, perfuração do septo nasal — estrutura que divide as duas narinas.
O problema preocupa especialmente porque muitos pacientes demoram a procurar ajuda médica por medo, vergonha ou receio de exposição devido ao caráter ilegal de algumas substâncias.
O que acontece no nariz de quem usa drogas inaladas?
A mucosa nasal é extremamente vascularizada e sensível. Quando substâncias químicas entram em contato repetidamente com essa região, ocorre um processo inflamatório constante, segundo informações publicadas no estudo Publimed.
De acordo com o otorrinolaringologista José Andrade, citado em reportagem do jornal A TARDE, os primeiros sinais costumam parecer simples: nariz entupido, irritação local e pequenos sangramentos. Com a continuidade do uso, porém, o quadro pode evoluir para deformidades permanentes e prejuízos importantes da respiração e do olfato.
Entre os principais sintomas observados estão:
- Sangramentos nasais frequentes;
- Formação de crostas persistentes;
- Feridas e infecções recorrentes;
- Dor ou ardência nasal;
- Alteração do olfato;
- Dificuldade respiratória;
- Perfuração do septo nasal.
Em alguns casos, a destruição dos tecidos pode exigir reconstruções cirúrgicas complexas.
Perfuração do septo nasal pode ser permanente
A perfuração do septo é uma das complicações mais conhecidas do uso crônico de substâncias inaladas.
Estudos publicados em periódicos de otorrinolaringologia mostram que a exposição repetida a drogas por via nasal pode provocar necrose dos tecidos, destruição osteocartilaginosa e lesões conhecidas como “lesões destrutivas da linha média”, caracterizadas pela deterioração progressiva das estruturas internas do nariz.
Dependendo da extensão do dano, a correção pode exigir procedimentos cirúrgicos complexos e nem sempre é possível restaurar totalmente a anatomia original, segundo o artigo publicado Publimed.
Compartilhar “canudinhos” aumenta risco de doenças
Outro fator de preocupação é o compartilhamento dos dispositivos utilizados para aspiração das substâncias, conhecidos popularmente como “canudinhos”.
Essa prática pode facilitar a transmissão de doenças infecciosas por meio do contato com sangue e secreções nasais microscópicas. Especialistas alertam que pequenas lesões na mucosa funcionam como porta de entrada para microrganismos.
O impacto não fica apenas no nariz
Embora os danos locais sejam os mais conhecidos, o uso de drogas psicoativas pode afetar diferentes sistemas do organismo.
Dependendo da substância utilizada, podem ocorrer:
- Alterações cardiovasculares;
- Transtornos psiquiátricos;
- Crises de ansiedade e pânico;
- Episódios psicóticos;
- Déficits cognitivos;
- Dependência química;
- Comprometimento do sono;
- Alterações neurológicas.
Além disso, especialistas observam que muitos usuários mantêm outros hábitos que potencializam riscos à saúde, como exposição frequente a ambientes com música em volume elevado, uso prolongado de fones de ouvido e privação de sono.
Jovens estão entre os mais vulneráveis
O cenário preocupa porque a experimentação de substâncias psicoativas costuma ocorrer durante a adolescência e o início da vida adulta, fases em que o cérebro ainda está em desenvolvimento.
Paralelamente, médicos têm observado um aumento de problemas auditivos em pessoas mais jovens, associado principalmente à exposição excessiva a sons intensos. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas entre 12 e 35 anos estejam em risco de perda auditiva relacionada ao ruído.
Em fóruns online, relatos de jovens que desenvolveram zumbido, sensibilidade auditiva e perda parcial da audição após anos de exposição a volumes elevados têm se tornado frequentes.
Existe tratamento?
O primeiro passo é interromper o uso da substância responsável pela lesão.
Segundo os especialistas, a recuperação depende da extensão dos danos já instalados. Em estágios iniciais, a mucosa pode apresentar melhora significativa com acompanhamento médico adequado. Em situações mais graves, no entanto, parte das sequelas pode ser permanente.
Nos casos em que o usuário ainda não consegue interromper completamente o consumo, médicos orientam medidas de redução de danos, como a lavagem nasal frequente com soro fisiológico 0,9%, embora a estratégia não elimine os riscos associados ao uso da substância.
Sinais de alerta que exigem avaliação médica
Procure um otorrinolaringologista se houver:
- Sangramentos nasais repetitivos;
- Nariz constantemente entupido sem causa aparente;
- Perda ou redução do olfato;
- Mau cheiro nasal persistente;
- Crostas frequentes;
- Dor facial recorrente;
- Alterações na respiração.
Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de evitar sequelas permanentes.
O desafio vai além da medicina
Especialistas destacam que o enfrentamento do abuso de substâncias psicoativas não depende apenas do tratamento das complicações físicas. O acesso a acompanhamento psicológico, psiquiátrico e aos serviços especializados em dependência química é considerado fundamental para reduzir danos e promover recuperação a longo prazo.
Como o Hospital Santa Mônica pode ajudar?
O Hospital Santa Mônica oferece atendimento especializado para pacientes que enfrentam dependência química, transtornos psiquiátricos associados ao uso de substâncias e situações de crise relacionadas ao abuso de drogas.
O tratamento envolve abordagem multiprofissional, com suporte psiquiátrico, psicológico, terapêutico e acompanhamento individualizado, considerando não apenas os efeitos físicos do consumo, mas também os fatores emocionais, familiares e sociais envolvidos no quadro
FAQ — Perguntas frequentes sobre drogas inaladas e danos no nariz
Sim. O uso repetido pode provocar inflamação, redução da circulação sanguínea local, necrose dos tecidos e perfuração do septo nasal.
Pode ser um dos sinais de alerta, especialmente quando ocorre de forma recorrente e associado a crostas, obstrução nasal ou perda do olfato.
Depende da gravidade da lesão. Casos iniciais podem apresentar melhora significativa com interrupção do uso e tratamento adequado. Já lesões avançadas podem deixar sequelas permanentes.
Sim. O compartilhamento pode favorecer a transmissão de agentes infecciosos devido à presença de microlesões e sangramentos na mucosa nasal.
O acompanhamento pode envolver otorrinolaringologistas, psiquiatras, psicólogos, clínicos gerais e equipes especializadas em dependência química.
Referências
- A TARDE — Abuso de psicoativos preocupa otorrinos
- PubMed — Otolaryngology Concerns for Illicit and Prescription Drug Use
- JAMA Otolaryngology — Cocaine-Induced Midline Destructive Lesions Associated With Erosion of the Eustachian Tube
- University of Kentucky — Complications of Intranasal Prescription Narcotic Abuse
- PubMed Central — Psychological Aspects and Treatment of Patients With Nasal Septal Perforation Due to Cocaine Inhalation
- SAGE Journals — Total Necrosis of the Intranasal Structures and Soft Palate as a Result of Nasal Inhalation of Crushed Oxycontin