Depois de anos enfrentando a dependência química, André precisou reconstruir a própria vida para recuperar também algo que considera ainda mais valioso: a presença na vida dos filhos. Hoje, em recuperação, ele fala sobre tratamento, sobriedade, família e a possibilidade de recomeçar.
Para muitos pais, o maior presente não está em algo que pode ser comprado. Está na possibilidade de estar presente.
No Dia dos Pais, a história de André ganha um significado especial justamente por isso. Depois de anos marcados pelo uso de drogas, perdas, afastamento da família e uma recaída que quase o levou à situação de rua, ele encontrou no tratamento especializado uma oportunidade de reconstruir sua vida e recuperar vínculos que pareciam distantes.
Hoje, quando fala sobre o que realmente importa, André não cita dinheiro, bens materiais ou conquistas profissionais.
Ele fala dos filhos.
“Hoje eu vejo que não tem dinheiro que pague eu passar um dia, dois dias com meus filhos num parque.”
Uma história que começou na adolescência
André conheceu as drogas ainda adolescente. O primeiro contato foi com a maconha, por influência de um amigo. Depois veio a cocaína.
No início, o consumo parecia estar sob controle. Como acontece com muitas pessoas que desenvolvem dependência, ele acreditava que poderia interromper quando quisesse.
Com o tempo, porém, o uso se tornou cada vez mais frequente. Vieram os problemas financeiros, as dificuldades profissionais e a perda progressiva do controle.
Mesmo diante das consequências, André ainda resistia à ideia de tratamento.
A tentativa de construir uma família
Em busca de um recomeço, André foi para o Japão.
Longe das drogas, conseguiu permanecer um período em abstinência, conheceu a mulher que se tornaria mãe de seus filhos, casou-se e construiu uma família.
Vieram os filhos.
A vida parecia ter tomado um novo rumo.
Mas a recuperação não significava que todos os problemas estavam resolvidos.
André conta que passou a concentrar sua energia excessivamente no trabalho e na busca por dinheiro e bens materiais. Naquele momento, acreditava que estava oferecendo o melhor para a família.
Mais tarde, percebeu que havia algo que o dinheiro não conseguia substituir: presença.
Enquanto trabalhava cada vez mais, sua esposa acumulava responsabilidades com a casa, o trabalho e os dois filhos pequenos. A comunicação entre o casal foi diminuindo até que ela decidiu voltar para o Brasil com as crianças.
A ausência dos filhos e a recaída
A distância da família provocou um profundo sofrimento emocional.
Foi nesse momento que André voltou a procurar as drogas como uma forma de anestesiar a dor.
Dessa vez, a substância escolhida foi a metanfetamina cristal.
O uso rapidamente se tornou compulsivo. André relata períodos de vários dias sem dormir ou se alimentar adequadamente, além de perda do controle sobre os próprios pensamentos, impulsos e decisões.
O trabalho foi perdido. O dinheiro acabou. O aluguel deixou de ser pago.
Ele chegou próximo de uma situação de rua.
Foi então que percebeu que precisava parar de tentar resolver tudo sozinho.
Ligou para a mãe e para a tia e pediu ajuda.
Pedir ajuda foi o primeiro passo para voltar a viver
André retornou ao Brasil e, no dia seguinte à chegada, foi internado para tratamento.
No Hospital Santa Mônica, iniciou uma rotina de cuidados que envolveu acompanhamento psiquiátrico, psicológico e multiprofissional.
Com o ajuste da medicação e o início das terapias, começou a perceber mudanças importantes.
Durante aproximadamente três meses, dedicou-se integralmente ao tratamento.
Mais do que interromper o uso da substância, passou a compreender a própria doença, os mecanismos da dependência e a necessidade de manter os cuidados mesmo depois da alta.
Recuperar a sobriedade. Recuperar a presença.
A recuperação trouxe para André uma nova perspectiva sobre o que significa cuidar de uma família.
Hoje, ele reconhece que ser pai não está relacionado apenas a prover financeiramente.
Está também em estar presente.
Em brincar.
Em conversar.
Em acompanhar o crescimento dos filhos.
Em compartilhar um almoço ou simplesmente passar uma tarde no parque.
Após anos de afastamento, André voltou a ter contato com os filhos e passou a valorizar esses momentos de uma maneira diferente.
A experiência também mudou sua percepção sobre felicidade.
Para ele, a maior conquista não está mais nos bens materiais que um dia tentou usar para demonstrar que estava cuidando da família.
Está nos momentos que o dinheiro não compra.
A recuperação continua
A história de André também mostra que a recuperação da dependência química não termina com a internação.
O tratamento continua depois da alta e envolve acompanhamento profissional, prevenção de recaídas, mudanças de comportamento e reconstrução dos vínculos familiares e sociais.
Não existe uma única trajetória de recuperação. Cada pessoa precisa ser avaliada individualmente e receber um plano terapêutico adequado às suas necessidades.
Por isso, reconhecer os sinais e buscar ajuda especializada pode fazer diferença antes que as consequências se tornem ainda mais graves.
Neste Dia dos Pais, uma mensagem de recomeço
A história de André não é sobre esquecer o passado.
É sobre aprender com ele e construir um presente diferente.
Depois de perder muito por causa da dependência química, ele descobriu que ainda poderia recuperar aquilo que considerava mais importante: a possibilidade de estar perto das pessoas que ama.
Hoje, segue em tratamento e deixa uma mensagem para quem ainda enfrenta a dependência:
“Não desista de você. Não desista da vida. Tem saída.”
Neste Dia dos Pais, sua história lembra que cuidar também significa reconhecer quando é hora de pedir ajuda.
E que, mesmo depois de períodos de afastamento, perdas e sofrimento, recomeçar é possível.