Transtorno por Uso de Substância

Vape entre jovens: não é tendência — é dependência precoce de nicotina

Por trás do crescimento do cigarro eletrônico entre adolescentes, há um problema mais profundo — e mais difícil de reverter: o início cada vez mais cedo da dependência química.

Os números mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) – IBGE, divulgados em 25 de março de 2026, não deixam margem para relativização. O uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes brasileiros praticamente dobrou em cinco anos.

A experimentação passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024 — um crescimento de 13 pontos percentuais.

Mas o erro está em olhar para esse dado como um fenômeno comportamental ou uma “moda juvenil”. Não é. Esse número, isoladamente, já é preocupante. Mas o dado ganha outra dimensão quando analisado sob a ótica da dependência: não se trata apenas de experimentar — trata-se de iniciar um processo neurobiológico de vício ainda na adolescência.

Estamos diante de um problema clássico de saúde pública com uma nova embalagem: dependência de nicotina em idade cada vez mais precoce.

O que mudou não foi o vício — foi a forma

Durante décadas, o combate ao tabagismo avançou com base em informação, restrição e mudança cultural. O cigarro perdeu espaço, principalmente entre os mais jovens.

Agora, a nicotina voltou — mais palatável, mais tecnológica e mais silenciosa.

O vape não carrega o estigma do cigarro. Não tem cheiro forte, não deixa marcas evidentes e ainda se apresenta com sabores doces, embalagens modernas e forte apelo digital.

Resultado: uma geração que não se vê como fumante, mas que está se tornando dependente.

Nicotina: o mecanismo da dependência

O ponto central não é o dispositivo, mas a substância.

Como explica o psicólogo Antonio Chaves Filho:

“A nicotina tem um poder viciante muito alto: ela age rapidamente no cérebro, liberando dopamina em circuitos de recompensa, o que gera alívio, prazer e forte desejo de repetir o consumo. Com o uso frequente, o cérebro se adapta, surgem tolerância e sintomas de abstinência (irritabilidade, ansiedade, fissura), o que prende a pessoa ao ciclo de fumar e dificulta largar, mesmo conhecendo os riscos.”

Esse processo é ainda mais crítico na adolescência, quando o cérebro está em desenvolvimento — especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos e tomada de decisão.

Do ponto de vista neurobiológico, o impacto é direto:

  • ativação intensa do sistema de recompensa
  • reforço rápido do comportamento
  • maior risco de dependência duradoura

A diferença é que, agora, tudo isso acontece sem o freio social que o cigarro tradicional tinha.

Entre as drogas mais viciantes

A gravidade do tema fica ainda mais evidente quando se observa o potencial adictivo da nicotina.

Segundo Antonio Chaves Filho:

“Em escalas comparativas de dependência, a nicotina costuma aparecer como a quarta substância mais viciante, perdendo apenas para três drogas de altíssimo potencial adictivo — as ‘três noitadas’: heroína, cocaína (especialmente na forma crack) e metanfetamina. Ou seja, em termos de poder de criar dependência, o cigarro está no mesmo ‘campeonato’ das principais drogas ilícitas, apesar de ser legal e socialmente banalizado.”

Esse dado muda completamente o enquadramento do debate.
👉 Não se trata de um hábito leve — mas de uma substância com alto poder de dependência.

Meninas fumam mais — e isso não é um detalhe

Outro dado que merece atenção: meninas já apresentam maior prevalência de uso. A pesquisa mostra que a experimentação é maior entre meninas (31,7%) do que entre meninos (27,4%).

Isso muda o eixo da discussão.

Há uma intersecção clara entre:

Em muitos casos, o vape entra como uma estratégia de alívio rápido para ansiedade, estresse ou desconforto emocional.

O problema é que esse alívio vem com custo: reforça um ciclo de dependência que pode se consolidar cedo e persistir na vida adulta.

Substituição silenciosa: menos cigarro, mais nicotina

Há um dado que, à primeira vista, parece positivo: o cigarro tradicional caiu.

Mas essa leitura isolada é perigosa.

O que está acontecendo, na prática, é uma substituição:

👉 sai o cigarro
👉 entra o vape
👉 permanece — ou até aumenta — a exposição à nicotina

Ou seja: não reduzimos o problema, apenas mudamos sua forma de apresentação.

Um produto proibido — e amplamente acessível

Segundo a Organização Mundial da Saúde, esses dispositivos não são seguros e representam risco real à saúde, especialmente para jovens. No Brasil, a comercialização de cigarros eletrônicos é proibida pela Anvisa.

Mas, na prática, o acesso é fácil — especialmente para adolescentes.

Esse descompasso entre regulação e realidade amplia o risco, porque cria um ambiente onde:

  • o produto circula sem controle
  • a informação é fragmentada
  • e a percepção de risco é mínima

O que está em jogo

Não é apenas o hábito de fumar.

Estamos falando de:

  • dependência química precoce
  • maior risco de transtornos mentais
  • impacto no desenvolvimento cerebral
  • maior probabilidade de uso de outras substâncias

E, principalmente, de uma geração que pode carregar esse padrão por décadas.

O desafio agora é outro

O enfrentamento do cigarro eletrônico exige uma mudança de abordagem.

Não basta repetir a lógica do combate ao cigarro tradicional.

Será preciso:

  • comunicar melhor os riscos reais
  • abordar a relação com saúde mental
  • envolver famílias e escolas
  • e tratar o uso como questão de saúde — não de comportamento

FAQ — Perguntas frequentes

Vape vicia mais que cigarro?

Pode viciar mais rápido, especialmente em jovens, pela combinação de alta nicotina e uso contínuo.

Adolescente pode desenvolver dependência mesmo com uso ocasional?

Sim. O cérebro em desenvolvimento é mais sensível à nicotina.

Por que a dependência é mais perigosa nessa fase?

Porque interfere no desenvolvimento cerebral e aumenta o risco de vícios futuros.

Parar é mais difícil para quem começou jovem?

Sim. A dependência tende a ser mais intensa e persistente.

Vape é permitido no Brasil?

Não. A venda é proibida pela Anvisa.

Conclusão

O avanço do cigarro eletrônico entre adolescentes brasileiros não deve ser interpretado apenas como uma mudança de hábito — mas como uma nova porta de entrada para a dependência de nicotina.

O dado da IBGE é claro: o crescimento é rápido, consistente e já apresenta mudança de perfil.

O risco agora é outro — uma geração que não fuma cigarro tradicional, mas que se torna dependente de nicotina cada vez mais cedo.

Referências

  • IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024)
  • Organização Mundial da Saúde — Relatórios sobre nicotina e juventude
  • Anvisa — Regulamentação de dispositivos eletrônicos
  • Ministério da Saúde do Brasil — Diretrizes sobre tabagismo e dependência

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