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Eletroconvulsoterapia (ECT): quando indicar e por que ainda é um recurso essencial na psiquiatria moderna

Evidências científicas, critérios de indicação e o papel da ECT no manejo de quadros psiquiátricos graves e refratários

A Eletroconvulsoterapia (ECT) permanece, mais de oito décadas após sua introdução, como uma das intervenções mais eficazes da psiquiatria para o tratamento de condições graves e potencialmente fatais.

Apesar de ainda cercada por estigmas históricos, a ECT moderna é um procedimento seguro, altamente controlado e amplamente respaldado por evidências científicas robustas. Este artigo revisa quando indicar a ECT, seus principais benefícios clínicos e o papel do Hospital Santa Mônica na oferta desse tratamento de alta complexidade.

O que é a Eletroconvulsoterapia (ECT) hoje

A ECT consiste na indução controlada de uma crise convulsiva terapêutica por meio de estímulo elétrico cerebral, realizada sob anestesia geral, com bloqueio neuromuscular e monitorização contínua.

Diferentemente das práticas do passado, a ECT contemporânea segue protocolos rigorosos de segurança, sendo reconhecida por diretrizes internacionais como tratamento padrão-ouro em indicações bem definidas.

Estudos demonstram taxas de resposta clínica entre 70% e 90% em casos de depressão maior grave, especialmente quando há refratariedade ao tratamento farmacológico ou risco iminente de vida (UK ECT Review Group, 2003; APA, 2023).

Quando indicar ECT: principais critérios clínicos

Depressão maior grave

A ECT é particularmente indicada no tratamento da depressão maior grave, sobretudo quando associada a:

  • Ideação ou tentativa de suicídio
  • Sintomas psicóticos
  • Retardo psicomotor importante
  • Refratariedade a dois ou mais antidepressivos prescritos de forma adequada

Nesses cenários, a ECT pode promover melhora clínica significativa em poucas sessões, reduzindo rapidamente o risco de suicídio.

Transtorno bipolar

Tanto na depressão bipolar grave quanto na mania refratária, a ECT apresenta eficácia comparável — e em alguns casos superior — à farmacoterapia, com resposta rápida e bom perfil de segurança, inclusive em pacientes idosos (Bahji et al., 2021).

Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos

Em quadros de esquizofrenia resistente ao tratamento, especialmente quando associados a catatonia, agressividade grave ou risco iminente, a ECT pode ser utilizada como estratégia adjuvante ao tratamento antipsicótico, incluindo casos refratários à clozapina.

Catatonia

A catatonia, independentemente da etiologia (psiquiátrica ou clínica), é considerada indicação absoluta de ECT. As taxas de resposta ultrapassam 80%, sendo frequentemente uma intervenção salvadora em casos resistentes ao uso de benzodiazepínicos (Fink & Taylor, 2003).

ECT como tratamento de urgência psiquiátrica

A ECT deve ser considerada precocemente quando há:

  • Risco iminente de morte (suicídio, recusa alimentar grave)
  • Deterioração clínica rápida
  • Impossibilidade ou contraindicação ao uso de psicofármacos (gestação, interações medicamentosas, efeitos adversos graves)

Em gestantes, por exemplo, a ECT é apontada como uma das opções mais seguras e eficazes para depressão grave, quando comparada à polifarmácia (Anderson & Reti, 2009).

Segurança e efeitos adversos

A ECT é considerada um procedimento de baixo risco, com mortalidade estimada entre 1 a cada 50.000 a 80.000 procedimentos, valor semelhante ao observado em anestesias para cirurgias de pequeno porte.

Os efeitos adversos mais frequentemente relatados incluem:

  • Confusão mental transitória
  • Amnésia anterógrada e retrógrada temporária

Evidências científicas demonstram que não há associação entre ECT e dano cerebral estrutural (Sackeim et al., 2007).

Como funciona o Serviço de Eletroconvulsoterapia (ECT) do Hospital Santa Mônica

O Serviço de Eletroconvulsoterapia (ECT) do Hospital Santa Mônica é estruturado de acordo com diretrizes nacionais e internacionais de boas práticas, priorizando segurança, rigor técnico e cuidado centrado no paciente.

O tratamento é conduzido pela Dra. Hianna Honorato, psiquiatra responsável pelo serviço CRM 187448 | RQE 68192, com ampla experiência no manejo de quadros psiquiátricos graves e refratários. A avaliação psiquiátrica detalhada, a indicação criteriosa da ECT e o acompanhamento longitudinal do paciente fazem parte do protocolo assistencial.

As sessões são realizadas sob anestesia geral, com a presença do Dr. Pedro Henrique Nogueira Lobo, anestesiologista CRM 172412 | RQE 94950, garantindo monitorização contínua das funções vitais, manejo seguro da via aérea e estabilidade hemodinâmica durante todo o procedimento.

O serviço conta ainda com duas enfermeiras especializadas, responsáveis pelo preparo do paciente, assistência durante o procedimento e cuidados no período de recuperação pós-anestésica, assegurando acolhimento, vigilância clínica e conforto.

Todo o processo ocorre em ambiente hospitalar controlado, com protocolos claros de avaliação prévia, consentimento informado, definição individualizada do número de sessões e acompanhamento sistemático da resposta clínica e de possíveis efeitos adversos.

O número médio de sessões varia entre 6 e 12, com ajustes individualizados conforme a resposta clínica.

ECT e combate ao estigma

Apesar das evidências científicas consistentes, a ECT ainda sofre com estigmatização, frequentemente reforçada por representações inadequadas na mídia. Estudos demonstram que pacientes submetidos à ECT relatam, em sua maioria, alto grau de satisfação, especialmente quando há alívio rápido dos sintomas e melhora funcional significativa (Rose et al., 2003).

Nesse contexto, o papel do psiquiatra é fundamental na educação do paciente, da família e da sociedade, promovendo decisões baseadas em ciência, ética e benefício clínico real.

Caso Clínico – Esquizofrenia refratária tratada com Eletroconvulsoterapia (ECT)

Paciente: sexo masculino, 60 anos, com diagnóstico de esquizofrenia de início precoce, com primeiro episódio psicótico aos 21 anos.
História clínica: evolução crônica, marcada por múltiplas internações psiquiátricas ao longo dos anos, crises frequentes, agitação psicomotora, sintomas psicóticos persistentes (fala desorganizada, alucinações e comportamento desagregado) e comprometimento funcional grave.

Apesar de seguimento psiquiátrico regular e diferentes esquemas farmacológicos instituídos ao longo do tempo, o paciente apresentava resposta terapêutica insatisfatória, com recorrência rápida das crises após as altas hospitalares. No ano anterior ao início da ECT, permaneceu internado por longos períodos, com importante perda de autonomia, incluindo episódios de incontinência urinária, dependência para atividades básicas da vida diária, distúrbios do sono e da alimentação.

O impacto da doença ultrapassava o paciente, gerando sobrecarga emocional significativa para a família, com reorganização constante da rotina doméstica e sentimento recorrente de impotência diante da refratariedade do quadro.

Indicação da ECT

Diante de um quadro de esquizofrenia refratária, com múltiplas recaídas, resposta insuficiente às estratégias farmacológicas, prejuízo funcional grave e importante comprometimento da qualidade de vida do paciente e de seus familiares, foi indicada a Eletroconvulsoterapia como estratégia terapêutica.

A decisão foi tomada após avaliação psiquiátrica detalhada, discussão multiprofissional e consentimento informado da família, seguindo os protocolos institucionais do Hospital Santa Mônica.

Evolução clínica

Após o início do tratamento com ECT, observou-se melhora clínica progressiva e sustentada, com redução significativa da agitação psicomotora, dos sintomas psicóticos e da necessidade de reinternações.

Entre os principais ganhos clínicos e funcionais observados ao longo do acompanhamento, destacam-se:

  • Ausência de novas internações no período subsequente ao tratamento
  • Recuperação da continência urinária
  • Melhora do padrão de sono e da alimentação
  • Redução da desorganização comportamental
  • Melhora da coordenação motora e da marcha
  • Retomada gradual da interação social e da autonomia

O paciente passou a participar novamente de atividades familiares e sociais, como encontros, eventos e lazer fora do ambiente hospitalar — algo que não ocorria havia vários anos.

Impacto familiar e psicossocial

A melhora clínica do paciente teve repercussão direta na qualidade de vida da família, com redução da sobrecarga emocional, maior sensação de segurança e retomada de atividades cotidianas. O acompanhamento próximo da equipe multiprofissional e a comunicação contínua com os familiares foram fatores relevantes para adesão ao tratamento e tranquilidade durante todo o processo terapêutico.

Segundo relato familiar, após cerca de um mês de tratamento com ECT, o paciente apresentava um nível de funcionamento e interação social que não era observado havia aproximadamente 10 anos, com perspectiva realista de progressiva independência funcional.

Discussão clínica

Este caso ilustra o papel da ECT como recurso terapêutico eficaz em esquizofrenia refratária, especialmente em contextos de falha terapêutica medicamentosa, prejuízo funcional grave e recorrentes internações.

Além da redução sintomática, a ECT demonstrou impacto relevante na funcionalidade, autonomia e reinserção social, reforçando seu valor como intervenção que ultrapassa o controle de sintomas e contribui para a recuperação global do paciente.

Considerações finais

A Eletroconvulsoterapia, quando bem indicada e realizada em ambiente hospitalar estruturado, com equipe experiente e protocolos rigorosos, pode representar uma mudança significativa no curso da doença para pacientes com transtornos mentais graves e refratários, oferecendo benefícios clínicos, funcionais e psicossociais sustentados.

REFERÊNCIA

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA).
The practice of electroconvulsive therapy: recommendations for treatment, training, and privileging. Washington, DC: American Psychiatric Association, 2023.
Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-families/ect.
Acesso em: jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO).
Mental health interventions: treatment and care. Geneva: World Health Organization, s.d.
Disponível em: https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use.
Acesso em: jan. 2026.

UK ECT REVIEW GROUP.
Efficacy and safety of electroconvulsive therapy in depressive disorders: a systematic review and meta-analysis. The Lancet, Londres, v. 361, n. 9360, p. 799–808, 2003.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12642045/.
Acesso em: jan. 2026.

SACKEIM, H. A. et al.
Effects of electroconvulsive therapy on neurocognitive function in patients with depression. Neuropsychopharmacology, Londres, v. 32, n. 1, p. 244–254, 2007.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16936712/.
Acesso em: jan. 2026.

BAHJI, A. et al.
Efficacy and safety of electroconvulsive therapy in bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. Bipolar Disorders, Hoboken, v. 23, n. 4, p. 347–361, 2021.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33448303/.
Acesso em: jan. 2026.

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE.
Saúde mental no SUS: cuidado em liberdade, defesa de direitos e rede de atenção psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde, s.d.
Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/desmad.
Acesso em: jan. 2026.

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